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Durante pandemia, brasileira se isola com amigas em veleiro no Caribe

Bárbara Cady já pisou em dezenas de países, mas estava com sua vida nômade em um ritmo lento por causa da crise do coronavírus

Bárbara Cady (à dir.) e as amigas Elisa Nadal (centro) e Patricia Schussel Gomes (à esq.) no veleiro (Foto: Arquivo pessoal)
Bárbara Cady (à dir.) e as amigas Elisa Nadal (centro) e Patricia Schussel Gomes (à esq.) no veleiro (Foto: Arquivo pessoal)

Em plena pandemia, a brasileira Bárbara Cady, de 35 anos, recebeu um convite irrecusável: viajar para o Caribe e, a bordo de um veleiro, realizar uma navegação pelo belíssimo mar que banha a região.

Mochileira experiente, ela já pisou em dezenas de países, mas estava com sua vida nômade em um ritmo bem mais lento por causa da crise do coronavírus.

“O que me motivou a fazer esta viagem durante a pandemia foi a possibilidade de ficar isolada em uma embarcação, indo para lugares sem aglomerações”, conta.

O dono do veleiro, Manoel Morgado, é um amigo de Bárbara e, para a jornada marítima, foram convidadas mais duas amigas, Elisa Nadal e Patricia Schussel Gomes, também do Brasil. O grupo, então, se reuniu na República Dominicana e, de lá, começou uma viagem de 32 dias.

Vida no mar

Ainda na República Dominicana, elas visitaram a Bahía de las Águilas, uma praia selvagem de 8 quilômetros de extensão de areia branquinha e banhada por um mar azul-turquesa cristalino.

“É impressionante. E é um lugar que faz parte de um parque de difícil acesso. Então, estava muito tranquilo. Foi algo incrível”, relata Bárbara.

O roteiro da viagem também incluiu visitas a países como Haiti, Belize, México e Guatemala — mas grande parte da jornada foi passada em alto-mar.

Bárbara conta que, ao longo do percurso, se equipava com pé de pato, máscara de mergulho e pulava do barco para nadar entre corais, peixes coloridos e através da água translúcida do Caribe.

Já no final do dia, todos esperavam pelo pôr do sol: “houve um dia em que até preparamos pipoca para ver o sol se pondo em alto-mar”, conta.

E, em uma noite de lua cheia, enquanto observava o céu, ela percebeu que a água brilhava sob seus pés, por causa da presença de organismos capazes de emitir luz, em um fenômeno conhecido como bioluminescência.

“As ondas batiam no veleiro e provocavam o surgimento de muita luz. Foi inesquecível.”

A brasileira relata que o veleiro de seu amigo é espaçoso e confortável, com cozinha, mesa de refeições, dois banheiros e quatro quartos. E, a bordo, as viajantes precisavam seguir uma rotina de marinheiros, que impõe desafios.

“Em momentos de navegação, nos dividíamos em turnos. Sempre havia uma pessoa responsável pela embarcação, para ver se estávamos indo na direção correta, verificar se havia outros barcos por perto e prevenir qualquer problema a bordo”, lembra, dizendo que os turnos também ocorriam na madrugada.

“Era preciso ficar atento a tudo o que estava acontecendo. E, principalmente em navegações de madrugada, este trabalho em turnos era bem cansativo. Você não pode dormir”.

Bárbara diz que a viagem não foi marcada por grandes perrengues, mas que, para encarar um passeio deste tipo, é preciso ter resistência física.

“Com frequência, o mar estava agitado. O barco balançava muito. Cheguei a ficar enjoada e vomitar em alguns dias. É horrível passar mal em um barco. Mas, no final, tudo dá certo”.

Ação social no Haiti e cães policiais a bordo

Além da Bahía de las Águilas, o grupo explorou, por exemplo, a ilha de Cozumel, um dos mais famosos destinos da região caribenha do México, banhado por água cristalina e que, antes da pandemia, era visitado por turistas do mundo inteiro.

Lá, ela realizou um mergulho na área de uma embarcação naufragada, em um momento que classifica como um dos mais especiais da viagem. “Neste local, há uma vida marinha incrível e uma visibilidade maravilhosa. Tive uma conexão total com o mar”.

Além disso, no meio de todo este trajeto, os brasileiros pararam no Haiti, para realizar uma ação social no país.

“Antes da viagem, fizemos uma campanha nas redes sociais que conseguiu arrecadar cerca de US$ 2 mil. O objetivo era reativar o sistema de abastecimento de água em um povoado de uma ilha do Haiti chamada Île-à-Vache, que havia sido danificado por causa de uma obra do governo local”, explica Bárbara. “Ao chegar lá, a gente destinou o dinheiro para a reconstrução dos canos que foram destruídos”.

Além de ajudar a comunidade, o grupo pôde explorar um pouco as paisagens do país caribenho, quase sempre associado à miséria.

“O Haiti tem praias lindas de areia branca. É o Caribe. Mas estávamos em uma ilha onde as casas não têm água. Então, você vê a pobreza”, diz a brasileira.

Segundo Bárbara, a pandemia gerou momentos um pouco desconfortáveis para o grupo no território haitiano. “Em Île-à-Vache, ninguém usa máscara. E as pessoas ficavam falando que a gente podia tirar as nossas máscaras, que ali não tinha covid. Isso nos afastou um pouco dos locais, pois eles acharam que estávamos com medo deles. Mas, na verdade, queríamos protegê-los”.

Já no México, os brasileiros viveram um momento inusitado: durante o ingresso no país, subiram ao veleiro policiais com cães farejadores, em um procedimento de fiscalização contra a entrada de drogas no território mexicano.

“Já estávamos esperando esta revista rigorosa, por isso não ficamos assustados. Mas não sabíamos que haveria cachorros”, diz Bárbara.

Fim da viagem

A Guatemala foi o ponto final da viagem, que terminou no começo deste mês de março. Mas este último trecho da jornada ainda reservava um momento especial para Bárbara e seus companheiros.

“A gente chegou pelo mar e, então, entramos no rio Dulce, onde há muitas aves e muito verde. Foi uma experiência especial”.

Bárbara deveria ter voltado ao Brasil nos primeiros dias de março, mas um de seus voos foi cancelado (adiando a viagem de retorno para a segunda semana do mês).

Mas a brasileira não ficou triste por ter permanecido mais tempo no território guatemalteca. Pelo contrário: ela trocou o mar por terra firme e explorou as lindas paisagens do interior do país, como o vulcão Acatenango.