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Dia do Cinema Brasileiro: relembrando a pornochanchada

Período histórico do cinema nacional driblou a censura e bateu recordes de bilheteria

No dia 19 de junho é celebrado o Dia do Cinema Brasileiro, quando Afonso Segreto filmou a baía da Guanabara, no Rio de Janeiro, em 1898. Para celebrar a data, relembramos um movimento até hoje um tanto execrado do cinema nacional, embora seja um dos períodos mais lucrativos e agitados: a pornochanchada.

O movimento começou entre 1969 e 1972 com as produções cariocas Os Paqueras, de Reginaldo Faria, Memórias de um Gigolô, de Alberto Pieralisi e Adultério à Brasileira, de Pedro Carlos Rovai, mas foi encontrar a sua casa na região do bairro da Luz, em São Paulo durante os anos 1970, mais precisamente na Boca do Lixo. Com produções de forte cunho cômico e erótico, as pornochanchadas eram produções baratas e que chamaram a atenção por se tornarem enormes sucessos comerciais e de público apesar de se tratarem de “filmes de pouca vergonha”.

O professor da Faculdade de Informação e Comunicação (FIC), Rodrigo Cássio, conta que assistiu a poucos filmes da pornochanchada, mas que o movimento é, sem dúvida, algo único no cinema nacional e que surgiu em um momento muito específico da História e do cinema brasileiro.

Ele enxerga uma certa continuidade de temas do cinema marginal e do Cinema Novo que marcaram os anos 1960 no Brasil, movimentos caracterizados por “novos diretores e articulando novas tendências de direção, e isso dá um vigor muito grande para o cinema brasileiro diferenciando do movimento do cinema que vinha antes com as tentativas de cinema industrial”, conta.

Além disso, a pornochanchada emerge em outro contexto, pós-maio de 1968, lidando com temas que até então eram tabu: “liberação sexual, novos temas, novas pautas surgem, a homossexualidade começa a ser abordada de outro modo. O desejo não é mais objeto de tratamentos pudicos. Então a pornochanchada também está ligada a esse momento assim como o cinema marginal”.

“O Cinema Novo surge criticando duramente a chanchada e depois vai repetir esse discurso em relação à pornochanchada”, explica, isso “tinha a ver com a vontade de fazer um cinema moderno que falasse do povo a partir de outras referências estéticas, que mostrasse outra imagem do povo, a questão do popular já era muito importante”.

Quando a pornochanchada emerge ela surge dos escombros destes movimentos reflexivos e vanguardistas que, apesar de uma proposta de cinema moderno, padeceram com a ditadura e não encontraram um respaldo tão grande com o público.

Com a pornochanchada é diferente: “a pornochanchada tinha muito público. Os filmes eram extremamente populares, algo que o Cinema Novo não conseguiu. Esse povo que o Cinema Novo buscava como público, a pornochanchada conseguiu, com filmes, como A Viúva Virgem, de Pedro Carlos Rovai, atingindo audiências de 4 milhões de pessoas. Isso é fenomenal”.

Vale lembrar que os filmes não eram pornográficos, eram eróticos e muitas vezes se tratavam de comédias. Rodrigo explica que, ao seu ver, é difícil definir a pornochanchada como um gênero de filmes, “mas sim um conjunto de filmes que tem certas características que os identificam como conjunto, mas que não permitem que a gente identifique um estilo só e que transitam pela comédia, pelo erótico, sem sexo explícito mas com muitas piadinhas, muitos personagens característicos como o playboy, a mulher que é sempre insinuante, você tem uma malícia muito grande nos filmes”.

E esse apelo, especialmente o cômico, conquistou o público: “dá certo. Os filmes eram financiados pelos próprios diretores, então nesse período existe de fato uma indústria produzindo os filmes, com uma necessidade de pagar os filmes. Então você fazia o filme com a expectativa que ele fizesse sucesso de bilheteria para você pagar o que gastou e continuar fazendo cinema, diferente da lógica das leis de incentivo”.

Desta forma, Rodrigo acredita que vale a pena olhar para este legado de sucesso comercial da época: filmes que se pagavam e financiavam os próximos filmes. “Tanto é que a produção se manteve muito ativa. Dois a cada três filmes brasileiros nos anos 1970 eram pornochanchadas produzidas ali na Boca do Lixo”, comenta.

Mas nem tudo foram flores: “deu certo embora tenha enfrentado grande resistência de vários setores justamente por ser burlesco, caricato, chanchadesco, que seria aquela má qualidade, mau gosto dos filmes”, conta Rodrigo, “nós tivemos movimentos organizados marchando contra a pornochanchada, isso aconteceu em Curitiba. Também políticos falando publicamente contra. Se você criticava você assumia uma posição conservadora, naturalmente, e falava com um certo público que via a pornochanchada de maneira opositora”. Além da própria censura “com intervenções diretas nos filmes, como com mudanças de títulos, cenas sofriam modificações, etc”.

Dias de hoje

Porém, devido ao seu sucesso comercial e linguagem, muitos falam sobre um legado da pornochancada. Este é o caso da mestre pela UFG, Lidianne Moraes. Ela estuda o termo ‘chanchada’ e sua suposta herança nos dias de hoje: a chamada ‘neochanchada’. A pesquisa surgiu ainda na graduação no curso de audiovisual da UEG e depois foi levada adiante no mestrado. “Sempre fui interessada por filmes brasileiros, por comédias, e eu percebia na própria academia um certo preconceito”, conta Moraes, “os professores, os outros alunos, não se interessavam por isso daí, mas eu já via como um fenômeno, existia uma representatividade da população brasileira”.

Ela percebeu que o cinema brasileiro passa por ciclos, com uma dificuldade de estabelecer uma indústria no país por diversos motivos: sociais, políticos, econômicos. “Por ser uma produção simbólica, ele acompanha os movimentos da sociedade. Então essas comédias que surgem hoje em dia, que eu utilizo o termo neochanchada, possuem uma estética mais sofisticada e carregam em si a hibridização dos meios. Você vê muito a mistura de linguagens da publicidade, do videoclipe, da televisão dentro do universo dos cinemas”. Algumas pessoas também se referem a estes filmes como Globochanchada por serem em grande parte produções da Globo Filmes.

O meio cinematográfico tende a ser bastante crítico destes filmes por não oferecerem um conteúdo mais reflexivo. “Eu discordo”, argumenta Moraes, “o cinema tem que conversar com todos os públicos e no momento em que eu consigo levar a grande população ao cinema, eu consigo trazer questões que a afligem e consigo dialogar com esse público, estou desenvolvendo uma nova forma de fazer arte”.

Segundo Moraes, o sucesso comercial destes longas “beneficiam outras produções. Com o dinheiro delas você consegue verba pras demais obras. Se você for olhar na arrecadação das bilheterias, estes filmes nacionais conseguem concorrer com grandes produções hollywoodianas e é com esses números que conseguimos desdobrar em novos filmes”.

Ela comentou que ao longo da história do cinema nacional, a comédia sempre esteve presente. O sucesso destes filmes, ela percebe, está em parte ligado de fato a uma representatividade: “o popular muitas vezes é tratado no universo desses filmes. É povo. Estes filmes têm questões relacionadas à população. Você vê o samba, o futebol”, explica.

E estas comédias também acompanharam e dialogaram com o seu tempo e seu contexto social: “Na época da chanchada, eram os anos 30. Os cinemas eram de rua, estavam dispostos pelos bairros, os ingressos eram baratos. Os filmes, querendo ou não eles também faziam críticas à sociedade, ao aumento dos preços, apresentavam as mazelas sociais”, conta Moraes, “na década de 70, as pornochanchadas foram feitas driblando a censura e o cinema conseguiu se desenvolver e dialogavam com o público”.

O mesmo é verdade para os dias de hoje: “temos uma outra sociedade e esses filmes falam com outro público. Em Um Namorado da Minha Mulher (2014) o filme fala sobre divórcio, sobre felicidade, sobre a nova mulher, moderna, ela é blogueira, então novas profissões. Ele está inserido em temas inerentes ao contexto atual”.