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Depois de 222 feridos graves em protestos, polícia chilena suspende uso de balas de borracha

Um estudo da Universidade do Chile mostrou que as balas têm 20% de borracha, e o resto é uma mistura de sílica, sulfato de bário e chumbo

Chile: lei pune com até 3 anos de prisão 'atos violentos' durante manifestações (Foto: Bruno Kaiuca/Zimel Press/Folhapress)

Depois de ultrapassarem a casa das duas centenas os manifestantes com lesões oculares graves nos protestos que tomam as ruas do Chile há um mês, a polícia anunciou na terça-feira (19) que suspendeu o uso de balas de borracha como ferramenta para desmobilizar os ativistas.

Um estudo da Universidade do Chile, que analisou munição encontrada com manifestantes feridos, mostrou que as balas não são feitas apenas de borracha, como afirma a polícia. Elas têm 20% de borracha, e o resto é uma mistura de sílica, sulfato de bário e chumbo. Segundo o relatório, o material é tão duro quanto a roda de um skate. De acordo com o diretor-geral dos Carabineros (como é chamada a polícia local), Mario Rozas, também será feita uma auditoria interna porque foram constatadas “discrepâncias” em relação à informação divulgada pelo fabricante que vende à polícia.

A nova orientação da corporação, a partir de agora, é tratar as balas de borracha como a munição letal, “como uma medida extrema e exclusivamente para legítima defesa quando há perigo iminente de morte”.
No domingo (17), o presidente Sebastián Piñera disse que não haverá impunidade para as forças de segurança que violaram os direitos do manifestantes durante os protestos, que já deixaram 22 mortos. Também estão sendo investigados pelo menos mil casos de abusos, incluindo tortura e violência sexual, por parte da polícia e das forças armadas.

“Em alguns casos, protocolos não foram seguidos, e houve uso excessivo de força, abusos e crimes”, disse o presidente num pronunciamento transmitido pela televisão.  Os protestos no Chile começaram depois de uma alta na tarifa do metrô de Santiago –já revogada– e passaram a incluir pautas mais amplas, como a melhoria no acesso à saúde e à educação, que consomem boa parte da renda dos chilenos.

O sistema previdenciário também é outro ponto nevrálgico, muito criticado pelos baixos vencimentos e pagamentos atrasados. Em pronunciamento após o início dos protestos, Piñera anunciou aumento de 20% nas pensões.
Os atos do último mês registraram a maior manifestação de rua da história do país: no dia 25 de outubro, 1,2 milhão de pessoas se reuniram nos arredores na praça Itália, na capital Santiago.

Em resposta às manifestações, o Chile vai realizar um plebiscito para perguntar à população se o país deve elaborar uma nova Constituição, que substitua a Carta da época da ditadura de Augusto Pinochet atualmente em vigor.
A realização da consulta, marcada para abril de 2020, foi aprovada pelo Congresso após governo e oposição chegarem a um acordo, que demandou horas de negociações intensas.