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Degelo do Ártico afeta 40% dos edifícios e ameaça cidades no norte da Rússia

Em toada de filme-catástrofe, derretimento do solo também libera gases do efeito-estufa e patógenos

Em toada de filme-catástrofe, derretimento do solo também libera gases do efeito-estufa e patógenos
Em toada de filme-catástrofe, derretimento do solo também libera gases do efeito-estufa e patógenos (Foto: Igor Gielow)

O derretimento de geleiras e calotas polares pode ser o efeito mais conhecido do aquecimento global, mas essa mudança climática tem trazido uma dor de cabeça extra aos países em torno do Círculo Polar Ártico —a região em que as temperaturas mais sobem no planeta.

“Estimamos que mais de 40% das fundações de edifícios e estruturas na zona do permafrost apresentem sinais de deformações” devido ao derretimento do solo, disse, por email, a assessoria de Alexandre Kozlov, ministro russo dos Recursos Naturais.

Como se trata da Rússia, alguma clarificação de escala é necessária. O permafrost, ou solo congelado a temperaturas iguais ou inferiores a zero grau por mais de dois anos seguidos, ocupa talvez 60% do maior país do mundo. Durante séculos de ocupação, por povos nativos e depois pela expansão imperial, cidades, estradas e atividades econômicas se basearam na estabilidade do solo congelado e em sua fauna e flora.

A preocupação do ministério, citando estudo apresentado no fim de maio pela Academia Russa de Ciências, é principalmente com o chamado permafrost contínuo —no qual a camada congelada, que inclui cunhas de gelo gigantes, não é interrompida e pode atingir 1,5 km de profundidade.​

Sobre ele moram boa parte dos cerca de 2,5 milhões de habitantes do Ártico russo, metade do total de moradores nessa zona —os restantes se concentram no Alasca, norte do Canadá, Groenlândia, Islândia e trechos de outros países nórdicos.

Iakutsk, conhecida como a cidade mais gelada do mundo, com 300 mil habitantes, é uma candidata a simplesmente desaparecer numa poça de lama. É um processo estimado em 30 anos, a ser mantido o ritmo atual de tentativa de controle das emissões de gases de efeito-estufa.

Outras áreas, como a “capital do Ártico”, Murmansk (300 mil habitantes), ficam sobre áreas descontínuas ou de permafrost esporádico, o que dificulta a avaliação do impacto, porque o derretimento depende de outras características geológicas.

E não é só lá. O centro internacional de estudos nórdicos Nordregio, sediado em Estocolmo, publicou em janeiro o primeiro trabalho estimando a distribuição geográfica dos 4,9 milhões de habitantes da chamada Região Circumpolar de Permafrost Ártica.

Segundo o estudo, o número de moradores da área vivendo sobre permafrost vai cair de 4,9 milhões para 1,7 milhão em 2050. Usando modelos atuais, a previsão é a de que 534 dos 1.162 cidades, vilas e lugarejos da região deixarão de estar sobre o solo congelado, com graus diversos de impacto.

Daqueles que sobreviverem, afirmam os seis autores liderados pela geóloga francesa Justine Ramage, 42% estarão em locais considerados de alto risco. A grande maioria fica na Rússia, mas há riscos grandes para diversos pontos do Alasca e para a cidade de Yellowknife, no norte canadense.

Segundo a Divisão de Estudos Geológicos e Geofísicos do Alasca, 85% do estado americano estão sobre permafrost contínuo, o que enseja também acidentes naturais de grande porte. Há até uma palavra na língua local Yu’pik, “usteq”, que significa “a superfície cavoca”, designando colapso catastrófico do solo.

“Nossa principal tarefa é prevenir as consequências. Para isso, estamos desenvolvendo um sistema de monitoramento da degradação do permafrost”, disse o ministério russo, afirmando que a primeira fase do programa estará pronta em 2024, e a segunda, mais ampla, em 2035.

O fato é que há pouco a fazer. Em um evento em maio, Kozlov estimou que reconstruções e realocações de populações podem custar até 5 trilhões de rublos (cerca de R$ 350 bilhões) ao país até 2050.

Para complicar, boa parte do Ártico é fonte de hidrocarbonetos, mais ou menos limpos, mas ainda combustíveis fósseis. A dependência da economia russa de petróleo e gás, que domina sua indústria exportadora, tem levado a mais exploração, elevando a disputa militar e geopolítica com outras potências.

Paradoxalmente, o derretimento do permafrost é prejudicial também para a indústria. Segundo análise do banco Sberbank, 30% das perdas de óleo e gás em acidentes na região são causadas pelo colapso do solo.

Não é a única contradição. Russos, canadenses e, principalmente, chineses têm comemorado a abertura por quase todo o ano das rotas árticas —para Pequim, exportar pelo polo Norte evitaria a dependência das ameaçadas rotas pelo mar do Sul da China e outras áreas disputadas, já que a Rússia às margens do Ártico é uma aliada. O Alasca viu dilema semelhante sob Donald Trump, quando o então presidente liberou a exploração na região, em 2017. Em junho, Joe Biden suspendeu a decisão, mas enfrenta pressões para manter apoio no Senado e talvez tenha de encontrar uma saída de consenso.

São questões que adicionam dramaticidade à longa lista de impactos das mudanças climáticas. O próprio permafrost já chamava a atenção pelo risco que o derretimento causava à própria dinâmica do aquecimento. Como contém milhares de anos de matéria orgânica congelada, ao derreter o solo desprende gás carbônico e metano, vilões usuais do aprisionamento do calor na atmosfera. Segundo o Nordregio, há no permafrost aprisionado o dobro de carbono do que está no ar.

Essa bomba de carbono, como é chamada há uma década pelos cientistas, traz ainda uma cereja para os amantes de enredos apocalípticos: a emergência de vírus e bactérias que estavam adormecidos.

Ao longo dos séculos, as camadas superficiais do permafrost sempre derreteram, dando vida à chamada faixa ativa do solo, em que nascem plantas, por exemplo. Só que as mais profundas são um verdadeiro congelador de doenças. Em 2016, na península de exploração de gás de Iamal, um surto de antraz chamou a atenção. Uma carcaça de rena morta há décadas pela bactéria que causa a doença, que ganhou fama em envelopes enviados com pó branco a políticos americanos na esteira do 11 de Setembro, descongelou.

Cerca de 2.000 renas foram infectadas, e um menino de 12 anos morreu, gerando alarme entre cientistas, já acostumados com o ocasional mamute ou rinoceronte da Era do Gelo brotando do solo.

Até aqui, contudo, esse capítulo não se consolidou fora da ficção —a série infantojuvenil “Sweet Tooth”, disponível no Netflix, conta um apocalipse aparentemente surgido de amostras de gelo de permafrost com algum bicho insondável. Ficção em termos. Em junho, cientistas russos ganharam manchetes ao trazer de volta à vida micro-organismos que estavam congelados havia 24 mil anos na Sibéria, candidatos ao despejo que o degelo ártico está insinuando.

Nessa toada, meio “O Dia Depois de Amanhã”, meio filme de zumbi, o problema vai ganhando corpo na vida real. Para o Nordregio, a ação é necessária, pois “3,3 milhões de pessoas vivem em assentamentos onde o permafrost vai desaparecer em 2050”.