PNEs

Deficientes físicos sofrem com a exclusão também nas opções de lazer e cultura

Inacessibilidade afasta pessoas com necessidades especiais das produções artísticas. Aos poucos, produtores tentam mudar essa realidade, mas avanços ainda são tímidos




Os desafios que as pessoas com necessidades especiais (PNEs) enfrentam no dia a dia todo mundo já sabe: cidades sem rampas que permitam sua plena mobilidade, falta de suporte nas escolas que garanta o acesso ao ensino a cegos e surdos, a tímida implementação dos pisos táteis em vias públicas, e a lista vai longe. Porém, poucos percebem quão limitantes também são as opções de lazer e cultura para as pessoas com esse perfil.

Quantas vezes você já viu um filme no cinema ou uma peça de teatro que oferecesse audiodescrição para os deficientes visuais, ou descrição em sinais ou legendas para deficientes auditivos? E em shows de música, ou mesmo em clipes transmitidos por canais como o YouTube?

Esse triste e pouco lembrado cenário de exclusão afeta a vida de 45,6 milhões de brasileiros que declaram ter algum tipo de deficiência, conforme os dados do Censo 2010. O número representa cerca de 23,9% de toda a população do País. Somente em Goiás são 1,4 milhão.

O presidente da Associação dos Deficientes Visuais de Goiás (Adveg), Gilberto Alves Silva, atesta as dificuldades enfrentadas por essa parcela da população. Ele reclama da falta se sensibilização dos fornecedores de produtos culturais por não se preocuparem também com o público que não é privilegiado com a integralidade de seus sentidos.

“Nós da associação já participamos de espetáculos teatrais com audiodescrição em Goiânia, mas isso ainda é muito pouco utilizado”, lamenta. “Inclusive, a expansão desse serviço é uma bandeira de luta da associação.”

A audiodescrição, como o próprio nome já sugere, fornece aos deficientes visuais, por meio de áudio, os detalhes exatos daquilo que está acontecendo no palco ou na tela do cinema, por exemplo. Geralmente, em espetáculos que oferecem o recurso, aqueles que solicitam podem receber um aparelho ao qual conectam um fone de ouvido, ou, em casos mais recentes, utilizam aplicativos disponibilizados para celulares.

“Em filmes, a voz do audiodescritor descreve de forma isenta a imagem que está sendo exibida. Nas pausas entre as falas, ele compõe todo o cenário”, explica Gilberto. “Isso aumenta o nível de compreensão do filme de forma extremamente considerável.”

O recurso, apesar de cada vez mais comum, ainda é uma raridade, em parte pela sua dificuldade de execução. A audiodescrição deve ser elaborada e produzidas em estúdio por profissionais que trabalham na área, gerando um custo considerável e demandando tempo. Infelizmente, não são todas as distribuidoras que se dispõem a fazer esse investimento para tornar seus filmes mais acessíveis.

Há exceções. Na TV, um exemplo recente e que pode ser acompanhado pelo grande público foram os eventos de abertura e encerramento das Olimpíadas, exibidos em rede aberta com todos os detalhes em áudio. Para os deficientes auditivos, há tempos as emissoras já fazem uso da tecla SAP, em muitos casos para possibilitar a descrição por legendas

Nos cinemas, uma produção recente que se destacou nesse sentido foi o filme de animação Abril Extraordinário, exibido em junho deste ano durante o Festival Varilux de Cinema Francês. Uma das redes de cinemas contempladas foi a Lumière, que apresentou o filme no Shopping Bougainville.

A analista de marketing da rede de cinemas, Bárbara Daher, explica que a obra foi escolhida por ter mais fácil compreensão, e por se tratar de um filme com classificação livre, podendo assim alcançar um público maior. “O próprio festival disponibilizou o filme nas versões legendada (com áudio em francês e legenda em português) e dublada (com áudio em português). E, em parceria com a empresa Iguale Comunicação de Acessibilidade, o festival disponibilizou os recursos de acessibilidade, como a transcrição simultânea em Libras, legendas e audiodescrição, por meio do aplicativo inclusivo MovieReading”, afirma.

Apesar da iniciativa inclusiva, foram poucos os que se beneficiaram. Por mais que o recurso tenha sido divulgado em todas as cidades brasileiras onde o festival foi exibido, e mesmo o filme tendo obtido 7 mil espectadores (em 30 cidades, com uma ou duas sessões por cidade), apenas 86 pessoas chegaram a utilizar a ferramenta de acesso.

“Acreditamos que a adesão foi pequena pois os próprios deficientes auditivos e visuais não acreditam que há a possibilidade de irem ao cinema, e, assim, não conseguiram ser informados sobre este projeto, mesmo com toda a divulgação que foi feita a nível nacional”, analisa Bárbara. Segundo ela, hoje em dia a Lumière estuda formas de garantir maior acessibilidade aos PNEs, mas admite que é um processo que deve levar tempo, já que há uma série de fatores a serem levados em consideração.

Já no mundo da música há pelo menos uma cantora que tem se dedicado de corpo e alma a tornar suas canções e até seus vídeos mais acessíveis.

Arte inclusiva

Luiza Caspary tem 27 anos e nasceu em Salvador, na Bahia. Ela cresceu em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e hoje mora na capital de São Paulo. Há quase 20 anos trabalha com música e atuação, e há pelo menos seis se empenha em tornar seu trabalho acessível para a maior quantidade de pessoas possível.

Além do talento e da beleza da artista e de sua voz, outro detalhe que possibilitou que seu trabalho ganhasse maior repercussão em todo o Brasil é o fato de Luiza fazer questão de disponibilizar a audiodescrição nos vídeos que publica na rede. Suas apresentações também são marcadas por telões com legendas e intérpretes de libras.

“Eu sempre pratiquei a empatia e me colocava no lugar das pessoas com deficiência imaginando suas dificuldades em se comunicar, mas foi em 2010 que minha mãe, Marcia Caspary, fez um curso de Audiodescrição em Porto Alegre e criou um grupo de estudos que em 2011 pegou meu videoclipe de cobaia para fazer o roteiro de audiodescrição das imagens”, conta Luiza. “Desde então eu me comprometo a gerar conteúdo em vídeo com legendas, fotos com descrições e fazer shows inclusivos.”

Segundo ela, é comum as pessoas imaginarem que parte de sua dedicação se deva ao fato de ter algum parente próximo com algum tipo de incapacidade física, mas não é o caso. “Foi um interesse natural e que aumentou após eu conhecer e conviver com cegos e surdos, que me ajudaram e ajudam muito a fazer um trabalho melhor”, afirma.

Mesmo com todo o trabalho desenvolvido, Luiza pontua que os deficientes ainda não compõem um público expressivo em seus shows. De acordo com ela, são em média 5% de cadeirantes ou pessoas com mobilidade reduzida e outros 5% com deficiência visual e auditiva, totalizando cerca de 10%.

Assim como Bárbara, Luiza justifica o baixo número com o fato de os PNEs estarem habituados com a falta de projetos que os contemplem. “Esse número ainda é pequeno pois a maioria dessas pessoas não está acostumada a ter acesso a eventos culturais”, ressalta.

A cantora explica que nos lugares em que se apresenta sempre procura proporcionar maior acessibilidade para todos os interessados. No entanto, a realidade brasileira ainda está longe de permitir a integração total de pessoas com deficiência e os desafios de quem luta pela inclusão são muitas.

“Os espaços estão evoluindo aos poucos, mas precisam melhorar. Esses dias fui realizar um show em um teatro que se dizia ‘completamente acessível’ porém uma cadeira de rodas não passava na porta do banheiro feminino”, diz Luiza. “Eu não deixo de fazer shows em locais que não possuem acessibilidade, mas presto satisfação nas redes sociais e tento incluir os recursos que cabem em cada espaço.”

Sua dedicação e a proximidade que cria com as pessoas já geraram diversas histórias que a marcaram. Ela destaca uma, ocorrida em um show no Centro Cultural São Paulo, em 2013: “Uma das cegas presentes era contra audiodescrição em show de música porque achava que tiraria o foco da canção, mas mesmo assim resolveu utilizar o recurso. Após o show, ela veio falar comigo maravilhada, dizendo saber a roupa que eu vestia, as cores da iluminação do palco, como eram os músicos, e que ela retirava tudo aquilo que havia dito antes”, relata.

E assim, lutando pela inclusão, Luiza marca não só sua carreira, mas também a vida de milhões de pessoas em todo o Brasil que não se sentem contempladas por grande parte das iniciativas culturais e de lazer. “As pessoas relacionam o que faço com caridade, não é o caso”, destaca a artista. “Luto pelo direito de acesso a cultura e ao meu trabalho que essas pessoas merecem ter, e não quero tirar proveito nenhum disso. Só quero expandir meus relacionamentos, me comunicar e fazer minha arte chegar a todos, sem exceção.”

 

Tópicos