Música

Crítica: ‘Reputation’ ainda não matou a velha Taylor Swift

A cantora criou um disco de camadas: a garota forte, bad ass e ácida primeiro, que vai se despedaçando até sobrar a doce garota romântica


Murillo Soares
Do Mais Goiás | Em: 12/11/2017 às 18:58:06

(Foto: Divulgação)
(Foto: Divulgação)

Taylor Swift é uma artista que sabe crescer de um disco para o outro e, por isso, as expectativas em torno dela são sempre altas. Quando a popstar terminou a divulgação de sua obra-prima 1989, começou a expeculação de como seria seu próximo trabalho. Três anos depois, ela volta mais pop e mais dark com o disco Reputation.

Sabe aquela história de que as pessoas têm camadas? O Reputation tem camadas. Isso faz com que o trabalho seja muito bem dividido. As sete primeiras faixas trazem a chamada “Nova Taylor”, que tomou o lugar da “Velha Taylor” no lançamento do primeiro single desta nova era, Look What You Made Me Do.

Mas, afinal, quem é a Nova Taylor?

A nova imagem da cantora teria sido construída pelas manchetes do que a imprensa sensacionalista fala dela. Ao invés de dedicar uma faixa do disco para brincar com seus rumores, como foi no 1989 com Blank Space (um dos maiores, se não o maior hit de Swift), a popstar elevou o jogo e fez um álbum inteiro em cima disso.

É um alter-ego que se levantou após ataques de Kanye West, Kim Kardashian e – quem sabe – um pouquinho de Katy Perry. Condensados com retalhos de declarações de ex-namorados e comentários sobre a vida amorosa supostamente “agitada” de Taylor. No final de Reputation, prova ser o que sempre foi: especulação.

“Baby, let the games begin”

Reputation começa com o segundo single divulgado por Swift: Ready For It. A faixa abre o disco e chega com presença, mostrando que agora a Nova Taylor está com a palavra. Daqui para frente todas as batidas e sintetizadores são pesados e beberam da fonte do Unapologetic de Rihanna, do auto-intitulado de Beyoncé e, quem sabe, do Hopeless Kingdom Fountain de Halsey.

O álbum segue para End Game, uma parceria de Taylor, Ed Sheeran e o rapper Future. Os três arriscam um freestlye que fala sobre “ter uma grande reputação” e “ter grandes inimigos”. A faixa tem uma das melhores frases de Swift até agora: “eu juro que não amo o drama, ele que me ama”.

Curioso, entretanto, chamar Ed Sheeran para uma conversa deste peso. Por que não alguém que lida com uma má reputação o tempo todo, como Lily Allen por exemplo?

Nesta primeira metade do disco ainda temos a dramática I Did Something Bad (aliás, uma das melhores), a gospel – com direito a coral – Don’t Blame Me, a cautelosa Delicate (que também vale um repeat), o single Look What You Made Me Do e So It Goes.

Minha Velha Taylor tá viva!

A partir da faixa Gorgeous (uma das faixas mais sem graça e imaturas de Reputation), ouve-se outra faceta de Taylor Swift: um relance da Velha Taylor. Só que, claro, mais madura e mais experiente que a garotinha inocente de You Belong With Me. Talvez a ovelha por cima da Regina George sobre a qual Katy Perry comentou há alguns anos.

A segunda parte do disco segue com Getaway Car, uma boa faixa pop que resgata um pouco da sonoridade do 1989 (saudades). Logo depois, temos King Of My Heart que segue mais ou menos a mesma fórmula romântica da faixa anterior.

Dancing With Our Hands Tied (uma das melhores do disco inteiro) segue o baile. Uma faixa dançante com um dubstep wannabe no refrão que fala sobre um relacionamento que nasceu destinado ao fracasso. A canção poderia ser ouvida no disco Red, assim como o último single divulgado antes do lançamento, Call It What You Want, e New Year’s Eve.

This Is Why We Can’t Have Nice Things é um dos destaques de Reputation. Esta é a grande faixa que descasca Kanye West e Kim Kardashian. Há referências à ligação que o rapper fez à cantora comentando sobre a faixa Famous (na qual ele canta que “fez aquela vadia famosa”) e aos vídeos que a socialite postou em seu Snapchat.

Com um tom hinário, do tipo de música que dá para entoar em festas com um copo de bebida no ar, Taylor dá seu recado: “É por isso que não podemos ter coisas legais, querido, porque se você as quebra eu tenho que tomá-las de volta”. Aqui e ali ela dá outras alfinetadas em Kanye, sublinhando inclusive que ele perdeu amizades outras amizades além da dela.

Dress é a única faixa totalmente descartável da tracklist. A canção se assemelha a I Don’t Wanna Live Forever, que Taylor Swift gravou com o cantor Zayn para um dos filmes da franquia 50 Tons de Cinza.

Boa reputação

Taylor Swift chegou a um patamar em que poucos chegam na indústria fonográfica: não importa o que ela lance, ela vai conseguir vender. Apesar de parecer ingênua, a cantora é totalmente calculista quando se trata de negócios e sabe muito bem o que deve fazer. Este álbum é prova disso.

Ela surfou na onda das manchetes controversas sobre seus toma lá dá cá com outros artistas e abraçou a imagem que pintaram dela. Algo já explorado por Lindsay Lohan em Rumors e por Britney Spears em Piece Of Me.

Swift abraçou todos os emoji de cobra comentados em sua conta no Instagram e tentou sair por cima. Marketing de qualidade que deve render à cantora bons frutos nos charts de vendas. Espera-se que o disco venda 2 milhões de cópias na primeira semana, apesar da queda dos singles nas paradas.

Musicalmente falando, Reputation não é tão coeso quanto 1989. É um álbum mais experimental, que puxa um pouco de R&B, de eletrônico e do pop romântico que Swift já domina. As letras, entretanto, são as mais afiadas até então.

Reputation não é um disco que vai ganhar o Grammy de Álbum do Ano, mas é bem produzido e mostra que Taylor não deixa a peteca cair. O único defeito do lançamento foi não colocá-lo nas plataformas de streaming. Mas essa conversa é complexa demais e esta resenha já ficou muito longa.