Resistência

Consciência Negra: mais que uma data, reflexão diária na luta contra o racismo

Data, comemorada no dia 20 de novembro, visa reforçar a luta do povo e buscar refletir a violência incessante que os negros sofrem diariamente


Joao Paulo Alexandre
Do Mais Goiás | Em: 20/11/2019 às 07:00:26

Consciência Negra: mais que uma data, reflexão diária na luta contra o racismo (Arte: Niame Loyola)
Consciência Negra: mais que uma data, reflexão diária na luta contra o racismo (Arte: Niame Loyola)

É difícil se livrar de marcas que, muitas vezes, a vida insiste em deixar. Pior ainda é quando essas lembranças ou até mesmo cicatrizes são passadas de geração em geração, pela sociedade, sem controle e sem cessar. Essas situações são tão graves que atormentam o psicológico, o emocional, o físico e, em casos mais graves, levam à morte. É exatamente essa a realidade enfrentada por pessoas com traços físicos que não são tidos como “padrão da sociedade” desde que o Brasil teve início, há 519 anos. Nesse período, o negro deixou o status de escravizado para ostentar o de liberto. No entanto, o fim da escravidão com a Lei Áurea não foi suficiente para balancear e desfazer diferenças históricas e sociais que prevalecem até os dias atuais. 

Muita coisa mudou. Tecnologias foram criadas, formas de consumo transformadas e a comunicação se globalizou. Porém, a evolução vista nessas áreas, no que diz respeito ao tratamento que é conferido a pessoas negras na sociedade, esbarra em uma série de retrocessos como a negação da existência do racismo no Brasil. Neste contexto, a celebração do 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, ganha ainda mais importância, como uma bandeira de valorização que precisa ser levantada.  O Mais Goiás preparou uma matéria especial sobre quem sofre racismo por ter a pele preta.

De acordo com a historiadora negra da Universidade Estadual de Goiás (UEG), Lorena Borges, a história do Negro do Brasil caminha junto com a da violência. Problema, segundo ela, intensificado pela exposição diuturna dessas pessoas a condições sub-humanas de vida e trabalho, que, desde a escravidão, provocaram a paulatina censura social a costumes, crenças danças e demais formas de expressão da população negra. 

Marginalização

Reflexo disso, pontua, é a marginalização desse público, que tem menos acesso a aspectos básicos da vida como educação, meio pelo qual seria possível uma escalada social em função de disputas por empregos com pagamentos mais altos. Hoje, porém, a taxa de desemprego entre pardos e negros é de 14,9%, três pontos percentuais a mais que a média nacional, que é de 11,8%, conforme expõe a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad/IBGE). 

Não bastasse o desemprego, as realidades salariais de brancos e negros também é grande. De acordo com a Pnad Contínua, em 2018, trabalhadores brancos recebiam, em média, 75% a mais do que pretos e pardos. Enquanto os primeiros recebiam salários médios de R$ 2.897, os segundos tinham rendimentos de R$ 1.636 a R$ 1.659; mais de R$ 1,2 mil de diferença. Segundo a estudiosa, essa realidade ajuda a entender os números constatados por outra pesquisa: o Atlas da Violência.

Com sua última versão divulgada no início de 2019, o levantamento aponta para um contexto de morte difícil de ignorar e que tem como vítimas mais comuns aquelas que possuem pele escura. Somente em Goiás, 20.577 pessoas negras foram assassinadas entre 2007 a 2017, enquanto o número de não negros mortos não passou de 5.8 mil, no mesmo período. Nacionalmente, a situação também é grave: mais de 460 mil negros foram mortos, em contraste com as 151 mil mortes violentas que fizeram vítimas de pele clara. 

Protesto contra morte de pessoas de pele negra (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Protesto contra morte de pessoas de pele negra (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

De vítima a suspeito

Sob a óptica da Segurança Pública, o hiato do que representa ser negro ou branco no país é evidente inclusive quando a pessoa de pele escura é a vítima. Antes da letalidade, outros estágios da violência são praticados contra as vítimas de racismo. Uma dessas marcas está em Rodrigo Pereira, de 32 anos. Hoje ele é professor de História, mas, há 13 anos, foi visto como traficante ou um usuário de drogas quando pediu auxílio a uma viatura da Polícia Militar após ser vítima de assalto.

Depois de ter sido roubado, Rodrigo procurou a polícia, mas foi confundido com bandido. Para complicar, ele só foi liberado depois que amigos o reconheceram. O caso ocorreu no Setor Pedro Ludovico, em Goiânia. 

Hoje professor, ele destaca que, para superar tudo, encontrou forças na Educação. A expectativa é que, por meio dela, seja possível formar cidadãos capazes de construir um mundo melhor. A história de Rodrigo é daquelas que tinha tudo para dar errado. Ele nasceu na periferia, perdeu o pai assassinado por dívidas de drogas quando tinha apenas três anos de idade. E boa parte dos amigos foram para o mundo do crime.

Mãe: superação

Entretanto, a mãe dele, Dona Abadia, de 55 anos, foi a principal responsável para que a história tomasse um rumo diferente. Apesar de todo apoio, Rodrigo afirma que o preconceito racial nunca foi situação isolada na sua vida. “Ela sempre dizia para mim que a educação era a única coisa que não tirava da gente. E lutei para isso. Não foi fácil. Sofri muito preconceito e sempre tinha o aspecto de inferioridade com a gente, mas, por ser criança, eu não percebia.”

(Arte: Niame Loyola)

O professor ainda lembra que conseguiu perceber essa “diferença” quando era o único negro em tudo o que fosse fazer. Era preciso mostrar todo o potencial dentro de sala de aula para não se tornar “o mais feio ou o mais burro ou a pessoa que não vai fazer sucesso.” E, quando seria o momento de colher os louros pelo empenho e havia o reconhecimento, nem tudo era positivo. A impressão que ficava era de que um negro alcançar sucesso em qualquer aspecto era sempre algo “exótico”.

Foi durante um seminário na disciplina de Geografia que Rodrigo teve a certeza de que a afirmação que sempre ouviu da mãe, de que podia chegar onde quisesse, era real. Ele estava na sétima série e se lembra do momento em que foi aplaudido de pé pela professora e os colegas de sala. “Foi nesse momento que percebi que eu não precisava ser mais um dentro das estatísticas e que poderia me colocar em um lugar de destaque”, finaliza.

Música, Direito e Preconceito

Enquanto Rodrigo se fez ouvir pela educação, a música foi o veículo utilizado por Éder Porfírio Muniz, 31 anos, que encontrou no Rap, o espaço para expor suas indignações. Ele, que também é conhecido como Rapper NB, também estudou, se formou em Direito e atua também como advogado. No entanto, a educação superior também não foi suficiente para coibir ações preconceituosas.

Para se formar, a motivação encontrada por ele foi mostrar que ninguém precisa desistir dos sonhos e que todos são capazes de alcançar os objetivos independente da cor, raça, credo ou orientação sexual. A busca por Justiça pulsava dentro de Éder, mas o espaço onde ela mais deveria ser colocada em prática acabou sendo palco de mais uma história de racismo: o Tribunal de Justiça.

Isso porque, há pouco mais de dois aos, Éder fazia a defesa de um amigo em um processo de prisão por pensão alimentícia. Em determinado momento da audiência, a ex-esposa do cliente disse: “não sei como um advogado negro e bonito pode defender uma pessoa dessas”.

Como a fala da mulher foi registrada em ata, Éder conta que entrou com o processo e teve a causa ganha. Ele foi indenizado por danos morais e materiais. Algumas pessoas devem se perguntar o porquê de entrar com o processo. Ele explica: a fala da mulher se encaixou no crime de injúria racial, quando a pessoa é atacada de forma individual, seja ela pela cor, raça, crença ou orientação sexual.

Éder fala sobre como a música e o Direito transformaram sua vida (Foto: redes sociais)

Éder fala sobre como a música e o Direito transformaram sua vida (Foto: redes sociais)

Racismo

A diferença de injúria racial para racismo, explica o rapper e advogado, consiste na diferença entre indivíduo e coletivo. “Quando a pessoa é inferiorizada no coletivo devido à cor, raça, crença ou orientação sexua, o caso é de racismo. Esse é imprescritível, inafiançável e tem pena muito mais severa que o crime de injúria”, ressalta.

Nesse contexto, Éder traz para análise casos que ocorreram com ele quando ainda passava sua infância no Parque Atheneu, em Goiânia. “Sempre percebi reação das pessoas quando chegava a algum lugar. Num supermercado, uma mulher puxou e segurou a bolsa achando que eu iria roubá-la. Noutra vez, quando me aproximei de uma criança branca, os pais a chamaram para perto, como se eu fosse lhe fazer algum mal”. 

Esse foi apenas um dos casos que marcaram a pele e a vida de Éder. Ele conta que cresceu no Parque Atheneu, em Goiânia, e sempre percebeu a reação das pessoas quando ele chegava a algum lugar. Se analisadas no contexto de uma sociedade racista, essas reações fazem todo o sentido. “Já cheguei em supermercado e a mulher segurar a bolsa achando que eu iria roubá-la. Ou quando eu chegava perto de uma criança branca, os pais pedirem para ela ir para perto deles como se eu fosse fazer algum mal a ela”, desabafa.

Sem rodeios, ele afirma que a advocacia e o rap são duas formas de praticar a liberdade de expressão. Atualmente, o advogado afirma que o estilo musical é o combustível diário para a vida de jurista. E vice-versa.  “O jovem negro não deve se preocupar com o que os outros estão pensando dele. Passe a se ver como uma pessoa séria e não ache que será recriminado. Faça valer o seu esforço e deixe que a pessoa perceba que uma sociedade só é legítima quando não tem distinção em nada. Assim, ela cairá na realidade que, quando ela age com preconceito, ela só não infringe apenas a lei, como infringe a ela mesma”, finaliza.

(Arte: Niame Loyola)

Voz aos excluídos

Apesar dos casos de Rodrigo e Éder, que escaparam da rota delineada pelo Atlas da Violência, a igualdade entre negros e não negros está longe de acontecer, de acordo com a coordenadora do Núcleo de Estudos em Relações de Gênero, Raciais e Afro-descendências do Instituto Federal de Goiás (IFG), presidente da Câmara Técnica de de Enfrentamento ao Racismo do Conselho Estadual da Mulher e professora de História da África no IFG, Janira Sodré. Por isso, reforça ela, é necessário que negros se organizem para combater o preconceito e fazer valer, para si, direitos e o respeito que deveria ser atribuído a todo e qualquer cidadão.

Janira Sodré explica importância do Movimento Negro em tempos de "racismo velado" (Foto: redes sociais)

Janira Sodré explica importância do Movimento Negro em tempos de “racismo velado” (Foto: redes sociais)

Por isso, continua ela, “o movimento negro busca fazer com que alternativas de protagonismo negro sejam colocadas em prática e que haja uma existência negra, seja ela individual e coletiva, no campo político, social e cultural da sociedade”. No entanto, a busca desse público por reconhecimento esbarra em outro obstáculo histórico, segundo Janira. “É evidente que a mudança de lugar social dos negros implica não apenas na visibilidade dos privilégios dos não negros, mas também no compartilhamento de decisões e recursos. Isso é algo que a sociedade brasileira tem muita resistência. Por outro lado o movimento já se posiciona para superar a violência racial”, conclui.

(Arte: Niame Loyola)