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Com histórico de grandes reviravoltas eleitorais, Anápolis elege prefeito hoje

O cenário começou favorável a Gomide, que iniciou a campanha na frente. Mas o jogo acabou virando e Naves saiu do 1º turno com mais de 30 mil votos de vantagem

Pesquisas apontam para vitória do prefeito e candidato à reeleição Roberto Naves (PP) no segundo turno da eleição que acontece em Anápolis, neste domingo. O favoritismo do prefeito é amplo; mas, quando o assunto é Anápolis, toda cautela é pouca: o município tem um invejável histórico de reviravoltas eleitorais, que não raramente deixam o meio político de boca aberta. O próprio Roberto protagonizou uma em 2016. Outros ótimos exemplos são as vitórias de Ernani de Paula e Pedro Sahium.

Em 2000, Ernani de Paula (à época no PPS) venceu com ampla vantagem as eleições para prefeito depois de largar nas últimas posições. A vitória de um “outsider” do meio político chamou atenção.

Contudo, uma intervenção do então governador Marconi Perillo, do PSDB, provocada por uma sucessão de problemas políticos e administrativos, fez com que Ernani fosse cassado pelo Legislativo menos de 3 anos depois da vitória.

Seu vice, Pedro Sahium, assumiu, sendo reeleito em 2004 apesar do apoio dado pelo PSDB ao candidato do PT, Rubens Otoni.

Em 2012, o atual candidato à Prefeitura de Anápolis, Antônio Gomide, foi reeleito no primeiro turno com mais de 88% dos votos. Uma vitória esmagadora sobre José Lima, do PDT.

Oito anos depois, em 2020, o petista começou forte e liderou nas pesquisas até pouco antes do primeiro turno, quando Naves tomou a dianteira – também de forma surpreendente.

O que esperar da disputa entre Naves e Gomide

Para o cientista político e professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás), Marcos Marinho, a tendência é de reeleição. No entanto, segundo ele, é preciso ter cautela.

De acordo com Marinho, mesmo com as pesquisas apontando para uma vitória de Naves, não é possível prever com certeza que isso aconteça. Conforme o professor, o deputado estadual e candidato Antônio Gomide ainda conta com um bom capital eleitoral em Anápolis e com uma militância do partido aguerrida – fatores que podem influenciar na escolha final do próximo gestor anapolino.

“Se a gente for pensar em tendência, ela pode apontar, de fato, uma vitória do Roberto Naves, mas eleição é eleição. Até no último dia, grandes viradas acontecem. A gente não pode esquecer que o Gomide tem um recall bom ainda em Anápolis, e o PT tem uma militância aguerrida”, pondera.

Para professor, antipetismo influenciou na queda de Gomide

Ainda conforme Marinho, a forte rejeição ao Partido dos Trabalhadores foi um fator de peso nestas eleições municipais. De acordo com o professor, a “demonização do PT não é coisa nova” e já vem de muito tempo. Isso seria um dos prováveis motivos, conforme Marinho, para a reviravolta observada em Anápolis.

Todavia, o professor ressalta que Naves, atual prefeito de Anápolis, possui a vantagem que contar a estrutura política de seu cargo. “Quem tem a máquina na mão, tem um pouco mais de potência para alavancar o processo [político]”, afirma Marinho.

Marcos Marinho, cientista político | Foto: Facebook

Além desses pontos, o cientista político lembrou dos problemas de saúde enfrentados por Gomide. No ano passado, o deputado passou por uma neurocirurgia para retirar um tumor benigno. A intervenção cirúrgica deixou sequelas, dentre elas uma paralisia facial. Recentemente, para corrigir a paralisia, o candidato teve que passar por mais uma cirurgia, o que fez com que ele chegasse a anunciar que não concorreria à Prefeitura de Anápolis. A mudança de decisão foi anunciada algum tempo depois, e o petista se lançou no pleito.

Marinho também destaca que o PT é um partido orgânico e que consegue se mobilizar. Porém, com a pandemia e as restrições, as campanhas de rua ficaram inviáveis.

O fator Bolsonaro

Na última quinta-feira, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), conhecido por ser um ferrenho opositor do PT, gravou um vídeo ao lado do deputado federal Vitor Hugo (PSL) declarando apoio a Roberto Naves. “Nós sabemos quem é que está do outro lado, qual partido está do outro lado”, afirmou o presidente, se referindo a Gomide. Porém, o pedido explícito de voto feito por Bolsonaro não deve ter efeito prático para Naves.

Segundo Marcos Marinho, o presidente da República não se saiu muito bem como cabo eleitoral nestas eleições, uma vez que boa parte dos candidatos apoiados por ele não conseguiram se eleger. “Todo mundo que o Bolsonaro pôs a mão, deu ruim”, afirma o professor.

Para o professor, já é uma tendência os eleitores bolsonaristas não votarem no PT. Logo, naturalmente esses votos migram para Roberto Naves. “Eu não acredito que tenha agregado alguma valor essa fala do Bolsonaro”, avalia.

Marinha arremata dizendo que, numa eleição, pode-se esperar de tudo – incluindo reviravoltas. A não ser, segundo ele, em casos “hiperbólicos” como a reeleição do emedebista Gustavo Mendanha, reconduzido ao cargo de prefeito de Aparecida de Goiânia com 95% dos votos.

“Tem muita gente que diz ‘vou votar’, mas na hora não vai, muda de ideia. É bom ter um pouco de cuidado antes de cravar um resultado”, finaliza.