Com 15 anos, ‘Confessions on a Dance Floor’ é um marco na carreira de Madonna

Cantora une dança e reflexão em uma sedutora concepção visual. Referenciando os anos 1970, disco atravessa o tempo e soa contemporâneo

álbum madonna Confessions on a Dance Floor Com 15 anos de lançamento, 'Confessions on a Dance Floor' é um marco na carreira de Madonna
(Foto: Reprodução)

Era novembro de 2005. Aos 47 anos de idade, Madonna tinha uma carreira de quase três décadas que, àquela altura, muitos já tinham dado por encerrada. Após um dos trabalhos mais criticados da discografia, o político e polêmico American Life (2003), a cantora chegou com os dois pés na porta para reclamar o trono. Assim foi lançado Confessions On a Dance Floor.

Em uma das eras mais lembradas da carreira, Madonna aparece vestida com collant cor-de-rosa e  cabelo estilo Farrah Fawcett. Confessions On a Dance Floor vendeu mais de 12 milhões de cópias no mundo, possui uma nota 80 no Metacritic e é vencedor na categoria “Melhor Dance/Eletrônico” do Grammy.

O tic-tac das bombas de American Life deu lugar ao tic-tac do relógio em Hung Up, primeiro single do disco. A música grudou no público, alcançou o número um em 41 países e deu à Madonna um lugar no Livro Guinness dos Recordes como a canção que foi número um em uma maior quantidade de países.

Hung Up conta com o sample de Gimme Gimme Gimme do grupo ABBA, sendo apenas uma das várias referências do álbum a disco music. No clipe, que a MTV exibia praticamente de meia em meia hora, uma mistura de dança, sensualidade e o esporte Parkour.

A coreografia, segundo a própria rainha do pop, foi toda inspirada em alguns filmes do ator John Travolta, como Embalos de Sábado à Noite e Grease.

Hey, Mr. DJ!

As músicas de Confessions On a Dance Floor não possuem intervalo. São estruturadas para parecerem o repertório de uma festa ou o set de um DJ. É como se já estivessem pré-remixadas. Infelizmente essa versão non-stop não está disponível nas plataformas de streaming, podendo ser ouvida apenas na versão física ou no Youtube.

Colocando todo mundo para dançar ao som de suas reflexões e confissões, Madonna canta principalmente sobre o amor. Em entrevistas durante o lançamento do CD, a material girl dizia que queria apenas se divertir e que “era tempo de relaxar e ficar de bom humor”.

Mas, claro, a religião deu as caras aqui e ali. Um exemplo está em uma das melhores faixas do álbum, Isaac, que mesmo soando como uma balada com ecos de Live To Tell, não destoa drasticamente das outras canções.

Outros destaques, Forbidden Love, How High e Future Lovers recebem uma produção um tanto quanto psicodélica. Get Together e Jump, também trabalhadas como singles, reforçam a premissa dançante e animada do álbum.

No clipe do segundo single, Sorry, uma das faixas mais queridas pelos fãs, a cantora atrai vários homens para sua van, enfrenta dançarinos em uma gaiola e patina em uma pista ambientada como uma casa noturna.

Influências e influenciados

Como já citado, em Confessions On a Dance Floor Madonna revisitou o som de cinco décadas atrás. Um pouco de Depeche Mode e New Order, umas pitadas de Pet Shop Boys e Bee Gees, além claro, de Abba, Donna Summer, o queridinho dos clubbers, Giorgio Moroder, e até The Jacksons Five.

Essa “volta à discoteca”, era arriscada e poderia ter soado apenas como um amontoado de referências. Contudo, a expertise da americana prevaleceu e ela soube unir o velho e o novo de forma magistral.

Não esqueçamos ainda do principal nome que ajudou Madonna a dar a luz à obra: o produtor britânico Stuart Price. Após o álbum com a loira, Price bombou e contribuiu com The Killers, Pet shop Boys, New Order e Scissor Sisters.

Em 2010, o produtor foi responsável por Aphrodite, de Kylie Minogue, apelidado pelos fãs de música pop como o “filho” do Confessions.

Este ano, Stuart produziu Future Nostalgia, disco de Dua Lipa que garantiu à cantora seis indicações ao Grammy 2021, incluindo Álbum do Ano. Durante o lançamento, a britânica confessou a inspiração na veterana. “Tem muitos elementos dela no CD. É o tipo de música dançante épica, que te transporta para um lugar feliz”, disse.

Como se não bastasse, Lipa convidou a própria Madonna para o remix do single Levitating. Na internet, fãs das cantoras produziram diversos mashups unindo canções das duas estrelas.

Além de Dua Lipa, soma-se a lista de artistas que provavelmente sugaram algo de Confessions On a Dance Floor em seus últimos trabalhos: Jessie Ware (What’s Your Pleasure?), Kylie Minogue (Disco) e Lady Gaga (Chromatica).

Saindo do globo de espelhos

O álbum de 2005 rendeu à Madonna a turnê queridinha dos fãs, que por si só merecia um texto à parte. Na Confessions Tour, a cantora surge de dentro de uma ‘discoball’ encrustada por cristais Swarovski, além de usar figurinos de Jean-Paul Gaultier e uma coroa de espinhos feita pela marca de artigos religiosos Cotters Church Supply.

O DVD da apresentação venceu o Grammy na categoria “Melhor Registro em Vídeo”. Não é pra menos: o espetáculo traduziu em forma de show todo o conceito do disco. Diferente das turnês anteriores, em que a loira priorizava os antigos hits em detrimento das novas músicas, aqui Madonna percebeu a predileção do público pelo novo trabalho e canta grande parte do Confessions.

O show mostrado no DVD é especial: foi filmado em Londres, no dia do aniversário da popstar. Um ano antes, Madonna tinha caído do cavalo resultando em 10 ossos quebrados. O que ela fez na turnê? Usou imagens reais de seus raio-x enquanto cantava Like a Virgin montada em um cavalo mecânico.

Polêmica? temos também!

Não seria Madonna se não tivesse pelo menos uma polêmica na era, não é mesmo?! Percursora em causar irritação nos conservadores, como exemplo o álbum Like a Prayer e a turnê Blond Ambition, aqui ela foi longe demais para alguns: é crucificada em uma cruz de espelhos enquanto canta Live To Tell.

Ao fundo, imagens de pobreza, guerras e uma mensagem sobre as crianças infectadas com HIV. Foi a partir daqui que Madonna se envolveu com o projeto Raising Malawi, que ajuda os menores infectados do país Malawi, no continente africano.

“Na apresentação, minha intenção é encorajar o ser humano a ajudar uns aos outros e a ver o mundo como um todo unificado”, explicou a arista na época.

Mesmo assim, não deu outra. Em Roma, católicos acusaram a americana de blasfêmia e diziam que ela deveria ser excomungada. Em resposta, a assessoria da cantora convidou o Papa Bento 16 para assistir o show. Ele não foi.

Já em Moscow, praticamente um exército esteve presente no local do show após suspeitas das autoridades de algum ataque durante a apresentação: 600 agentes especiais anti-rebelião e 7 mil policiais, para um público de 50 mil pessoas.

Em outro momento polêmico da Confessions Tour, durante a performance de Forbidden Love, um dançarino aparece com o símbolo muçulmano no corpo, e outro com o símbolo judeu, os dois simulando um casal.

Amor marcado na pele

Quando tinha 10 anos de idade, o designer Pedro Pontieri, hoje com 26, teve o primeiro contato com Madonna ao assistir o clipe de Me Against The Music, parceria da rainha do pop com Britney Spears, a princesa.

Para ele, Confessions On a Dance Floor é um dos melhores álbuns já feitos.

“O CD possui uma energia incrível, é moderno e de bom gosto. Representa um ponto importante na carreira da Madonna, pois ela mostrou que ainda consegue ser relevante e interessante”, diz Pedro, que traduziu o amor pela cantora na pele: já fez duas tatuagens em homenagem à artista.

Pedro, que já foi nos shows da loira em São Paulo, Paris e em Antuérpia, na Bélgica, afirma que Confessions marcou uma fase de sua vida. “Minhas músicas preferidas são Sorry, Get Together e Forbidden Love. Ver essa mulher no palco com toda sua energia, poder e beleza foi indescritível. Estrela nenhuma chegou tão longe e com tanta força”, diz.

Dos palcos para as páginas

A escritora Elaine Freitas, 40, é fã de Madonna desde a década de 1990. A paixão pela artista é tanta que, em 2012, a goiana lançou o livro “Tributo a Madonna“, pela editora Universo dos Livros. A perita quando o assunto é a cantora, classifica Confessions On a Dance Floor como “uma autoajuda dançante”.

“Na época do lançamento eu estava passando por um momento difícil e o álbum veio com letras que eu precisava ouvir e refletir. Tudo que envolve essa era é bem desenvolvido, foi uma fase inesquecível para quem é fã”, diz.

Para Elaine, o disco faz parte da “divina trindade” da popstar, sendo Ray Of Light e Like a Prayer seus outros dois CDs preferidos. “Em 2005 ela mudou a música pop mais uma vez, voltou a atrair os holofotes e conseguiu um público mais jovem” acrescenta.

A goiana guarda com carinho os registros de quando foi na Confessions Tour, em Londres. “Foi a primeira vez que a vi ao vivo. Para mim, essa é a melhor turnê ao lado da Blond Ambition. Hung Up é uma das melhores musicas do mundo e não deve ser esquecida nunca”, finaliza.

Com 15 anos de lançamento, 'Confessions on a Dance Floor' é um marco na carreira de Madonna

(Foto: Arquivo Pessoal)

Com 15 anos de lançamento, 'Confessions on a Dance Floor' é um marco na carreira de Madonna

(Foto: Arquivo Pessoal)

Time goes by, so slowly

Como a própria canta em Hung Up, o tempo passa. Madonna lançou em 2005 um disco que todos seus trabalhos posteriores foram e serão comparados. Por que o sucesso de Confessions On a Dance Floor atravessa gerações? Talvez porque todos gostamos de um escapismo, de esquecer os problemas, as “bombas” e apenas dançar.

Dê o play: Hung Up, Sorry, Forbidden Love, Isaac e Jump

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*Com informações do site MadonnaOnline