CORONAVÍRUS

Cloroquina: Médicos e biólogos criticam protocolo e veem ‘armadilha’

Ministério da Saúde autorizou uso do medicamento para tratar de pacientes com sintomas leves de covid-19


Da Redação
Do Mais Goiás | Em: 20/05/2020 às 14:21:03

Com 50 novos casos em 24h, Goiás chegou a 2.383 confirmações de covid-19 neste sábado (23). (Foto: Divulgação)
Com 50 novos casos em 24h, Goiás chegou a 2.383 confirmações de covid-19 neste sábado (23). (Foto: Divulgação)

O Ministério da Saúde divulgou nesta quarta-feira (20) o novo protocolo que libera no SUS o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina até para casos leves de Covid-19. Até então, o protocolo previa os remédios para casos graves.

Veja a opinião de alguns especialistas e instituições:

Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz)

“Não temos, até o momento, nenhum estudo conclusivo sobre a cloroquina. O único estudo já publicado por pesquisadores da Fiocruz com pacientes de Covid-19 foi o CloroCovid-19. Os resultados iniciais do estudo mostram que pacientes graves com Covid-19 não devem usar doses altas de cloroquina. A pesquisa tem como objetivo avaliar a segurança e a eficácia de duas dosagens diferentes do medicamento e analisou 81 pacientes com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). As primeiras conclusões do estudo apontaram que pacientes graves com Covid-19 não devem usar a dose recomendada pelo consenso de tratamento chinês. Este foi o primeiro estudo no mundo que apresentou evidências sobre esse tipo de uso”.

Julio Croda, infectologista da Fiocruz e UFMS, e ex-diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde

“O protocolo é uma armadilha para o médico que está na linha de frente [de combate à pandemia]. Haverá pressão popular para a prescrição do medicamento pelo médico, mas o próprio ministério condiciona a uma série de medidas, que não tem como aplicar no dia a dia, como o monitoramento eletrocardiográfico. O protocolo também é diferente do parecer do Conselho Federal de Medicina (CFM), que fala sobre o uso em casos confirmados — o Ministério da Saúde não explicita isso”.

“O que vai acontecer é que muitos médicos vão prescrever indiscriminadamente, não vão se atentar à nota publicada no protocolo do Ministério da Saúde ou à recomendação do CFM para usar em casos confirmados, e depois que o paciente tiver um problema associado ao medicamento, o médico poderá ser responsabilizado legalmente porque não está de acordo com o CFM, nem com o protocolo do Ministério da Saúde. Não é uma droga para ser usada na suspeita de um caso, nem pela população. Minha preocupação maior é que esta droga não tem evidências científicas e há literatura que inclusive condena o uso.”

Natália Pasternak, bióloga formada pela Universidade de São Paulo (USP), PhD com pós-doutorado em Microbiologia

“Esta é uma situação absurda. A gente tem inúmeros trabalhos mostrando que a hidroxicloroquina não é eficiente no tratamento em nenhuma etapa da Covid-19. Essa mudança de protocolo vai trazer um uso precoce do medicamento sem nenhuma fundamentação científica”.

“Nós temos trabalhos em modelo animal, e é assim que se testa um medicamento. Devido ao hype e à pressão da população pela droga, as pessoas começaram a testar em humanos, e foi passada uma impressão errada de que o medicamento pudesse funcionar. Primeiro testaram em células, células genéricas, uma linhagem fácil de manipular em laboratório, e funcionou a cloroquina, mas isso não quer dizer que funcionaria em outras células e em animais. E foi exatamente isso que os outros testes mostraram: que não funciona”.

“Você passa a testar em animais e a hidroxicloroquina não funciona. Inclusive, quando passa a ser usada em animais ela aumentou a replicação [do coronavírus]. Também testaram em células-alvo, células do trato respiratório, e também não funcionou. Foi testado em macacos, camundongos, em todos os estágios da doença. Não foi capaz de reduzir a carga viral”.

Alexandre Naime, Sociedade Brasileira de Infectologia em SP

Alexandre Naime (Foto: Divulgação)

“Logo no começo do documento tem um ‘considerando que não tem evidência científica para o tratamento específico da cloroquina’. Esse ‘considerando que não tem evidência científica’ já mostra que não tem sentido nenhum usar nenhum tipo de medicação. Ele é um documento político. Só para dizer que tem um protocolo. E coloca bem claro que fica a critério do médico e do paciente decidir. É basicamente um documento político que não acrescenta em nada”.

Jean Gorinchteyn, infectologista do hospital Emílio Ribas, em São Paulo

Jean Gorinchteyn, infectologista (Foto: Reprodução)

Jean Gorinchteyn, infectologista (Foto: Reprodução)

“Todo médico segue ou deveria seguir os estudos científicos na hora de dar um medicamento. Esses estudos mostram que usar ou não a cloroquina, neste momento, não tem respaldo científico. Foram feitos vários trabalhos de pesquisa em várias partes do mundo e nenhum trouxe resultado promissor. Como medicações podem causar efeitos colaterais, há um risco no uso deste medicamento.”

Wladimir Queiroz, infectologista da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI)

“A adoção da cloroquina é uma decisão política tomada por pessoas que não são médicas. Sou médico desde a época em que surgiram as primeiras infecções por HIV e naquele momento muitas pessoas falavam o que vinha à cabeça. Usavam um medicamento que deu certo em um paciente e já achavam que daria certo para todos. Mas quem está lidando com os pacientes de Covid-19 sabe que tem pessoas que vão muito bem contra a doença e outras que vão muito mal, independente do medicamento. Atribuir [a cura da Covid-19] a uma droga tão antiga, cujo mecanismo de ação e efeito biológico são tão diferentes, não tem o menor sentido.”

Álvaro Costa, infectologista do Hospital das Clínicas

“A gente tem um país muito heterogêneo. Então, abre a possibilidade de os profissionais médicos usarem, apesar de a gente falar inúmeras vezes da falta de evidências, mas abre a possibilidade de uma expansão do uso da medicação, mesmo com todos os poréns já colocados. Quando saíram os primeiros estudos houve muito furor, mas à medida que ampliamos os estudos, no contexto da ausência de evidências, a gente passa a olhar com muita cautela para essas medidas [do governo federal]”.