Astronomia

China se torna 1º país a pousar nave no lado afastado da Lua

É a quarta missão lunar chinesa, e todas foram bem-sucedidas


FolhaPress
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Do FolhaPress | Em: 03/01/2019 às 21:05:39

(Foto: Gregory H. Revera / Wikimedia Commons)
(Foto: Gregory H. Revera / Wikimedia Commons)

A China se tornou o primeiro país do mundo a colocar uma espaçonave suavemente na superfície do lado afastado da Lua. Cercado de mistério, o pouso da Chang’e-4 ocorreu às 0h26 (de Brasília) desta quarta-feira (3), sem transmissão ao vivo.

Ainda assim, o sucesso repercutiu globalmente. E apesar de, do ponto de vista astronômico, ter sido algo que ocorreu “ali na esquina”, trata-se de uma grande realização na engenharia e na ciência.

É a quarta missão lunar chinesa, e todas foram bem-sucedidas. As sondas Chang’e-1 (2007) e 2 (2010) foram orbitadoras, e a Chang’e-3 (2013) fez o primeiro pouso suave na Lua desde 1976, data da última missão robótica soviética à superfície lunar, a Luna-24. Ela levou à região do Mare Imbrium, no lado próximo, o jipe robótico Yutu.

Chang’e se refere à deusa lunar da mitologia, e Yutu é o Coelho de Jade, outro personagem mitológico chinês.

Construída como uma reserva para a missão Chang’e-3, a nova espaçonave também tem um módulo de pouso e um jipe robótico, batizado naturalmente de Yutu-2.

O procedimento de descida seguiu uma programação cuidadosa e foi realizado de maneira automática pela sonda, como ápice de uma viagem que levou mais de um mês.

A Chang’e-4 foi lançada do Centro de Lançamento de Satélites de Xichang, no suboeste chinês, em 8 de dezembro, chegando a órbita lunar após quatro dias. Depois de 22 dias testando seus sistemas e esperando o Sol nascer no local de pouso, ela deixou uma órbita elíptica com perilúnio (ponto mais próximo da Lua) de 15 km e desceu até a superfície.

O maior desafio de uma missão ao lado afastado, e a principal razão pela qual ninguém jamais havia feito isso antes, é que não há como manter comunicação direta com a Terra de lá. Afinal, o lado é “afastado” justamente por permanecer o tempo todo “de costas” para nosso planeta. (E por isso daqui vemos sempre a mesma face da Lua no céu.)

A única vez que se cogitou seriamente ir à superfície do lado afastado foi no planejamento da última missão tripulada americana, a Apollo-17, em 1972. Contudo, para evitar riscos, a Nasa optou por uma escolha mais conservadora.

Qual é o segredo do sucesso chinês? Antes de tentar o pouso, eles lançaram um satélite de comunicações capaz de fazer a ponte entre o controle da missão em Pequim e o lado afastado lunar.

Localizado numa órbita ao redor de um dos pontos de equilíbrio gravitacional do sistema Terra-Lua (cerca de 70 mil km além da Lua), o Queqiao (“Ponte de Pegas”, outra referência mitológica chinesa) permite contato entre os controladores e a Chang’e-4.

O jipe foi levado à superfície cerca de 12 horas após o pouso e agora vai explorar seus arredores, tirando fotos e analisando a composição de rochas. O módulo de pouso seguirá trabalhando.

Além de câmeras, ele conta com um experimento de rádio para se aproveitar do fato de que está no único lugar em todo o Sistema Solar onde se pode evitar permanentemente o ruído de interferência de transmissões terrestres.

Também há a bordo um peculiar experimento biológico: num pequeno cilindro de 18 x 16 cm, há sementes da planta Arabidopsis thaliana, batatas e ovos de bicho-da-seda. Esses estranhos passageiros agora formarão uma minibiosfera exposta às condições lunares. A ideia é que as plantas, por fotossíntese, gerem oxigênio, que seria gasto pelos bichos-da-seda em seu desenvolvimento. Ou seja, a Lua já tem seus primeiros moradores fixos, e a graça é ver quanto tempo eles aguentam.

Os chineses não devem parar por aí. Já está programada para o final deste ano a missão Chang’e-5, que fará a primeira coleta de amostras do solo lunar desde 1976. E a CNSA, agência espacial chinesa, não esconde que uma ambição de longo prazo é levar astronautas à Lua e quem sabe estabelecer uma base por lá.