Lei antimanicomial

Pacientes de centro de reabilitação eram mantidos em cárcere privado e com más condições de higiene, em Aragoiânia

No local, foram encontrados máquinas de choque, porretes e até um facão. Além disso, remédios eram manipulados por profissionais sem preparo pra exercer a função


Bárbara Zaiden
Do Mais Goiás | Em: 21/09/2019 às 14:18:10

Pacientes de centro de reabilitação eram mantidos em cárcere privado e com más condições de higiene, em Aragoiânia (Foto: Reprodução | PC)
Pacientes de centro de reabilitação eram mantidos em cárcere privado e com más condições de higiene, em Aragoiânia (Foto: Reprodução | PC)

Os pacientes do Centro Terapêutico Iluminar, em Aragoiânia, eram mantidos em cárcere privado e com más condições de higiene e dois coordenadores do local foram presos na tarde da última sexta-feira (21). A ação foi realizada pela Polícia Civil (PC) e a Vigilância Sanitária.

O delegado Arthur Fleury, que comandou a operação, afirma que menores de idade, mulheres e homens dividiam os mesmos espaços. Além disso, eram internados juntos pacientes psiquiátricos e dependentes químicos. No local, foram encontrados máquinas de choque, porretes e até um facão. Além disso, remédios eram manipulados por profissionais sem preparo pra exercer a função.

“Eu tava dormindo nessa cama dura aqui. Eles trancam as portas todinha, da sala e da cozinha. E ‘nóis dorme trancado aqui dentro” [sic], relata uma das mulheres internadas, que não será identificada. Ela conta que não viu nenhuma agressão porque chegou há poucos dias, mas que os colegas relatam. O motivo da internação dela é por transtorno bipolar e depressão.

“A investigação teve início com denúncia de maus tratos e depois tivemos relatos até de abusos sexuais das pacientes”, afirma o delegado Artur. Segundo ele, muitas pessoas ainda devem ser ouvidas, mas outros detalhes não podem ser repassados para não atrapalhar a investigação.  A instituição já era investigada depois de três mortes terem acontecido nos últimos dois anos. O delegado explica que, atualmente, aguarda o laudo pericial sobre a última morte, pois foi necessário solicitar a exumação do corpo.

Em vídeos gravados pela PC, a piscina do lugar aparece com a água verde. As camas, de beliche, são de ferro e estão enferrujadas. Os colchões são finos e aparentam muito tempo de uso, assim como os cobertores. Na cozinha, pilhas de vasilhas de plástico com restos de comida foram encontradas. Além de panelas cheias de restos de alimentos. A mulher internada ainda conta que o macarrão foi ela quem cozinhou. “Até que rato e barata não tem”, finaliza.

Dentre os relatos dos internos do Iluminar, estão o de que eram buscados em casa para serem internados a força. O delegado Arthur afirma que várias pessoas são até mesmo de outros estados. A prática não é considerada ilegal, afinal, em julho deste ano, o Governo Federal publicou a Lei 13.840, que autoriza a internação compulsória de dependentes químicos sem a necessidade de autorização judicial. A medida veio na contramão da Lei Antimanicomial, criada em 1970, que estimulava a permanência do pessoas com problemas psiquiátricos em casa e o tratamento nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps).