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Carla Lacerda relança ‘Sobreviventes do Césio 137’ em edição revisada e ampliada

Nova edição tem novo projeto gráfico, dados atualizados e novas entrevistas


Jose Abrão

Do Mais Goiás | Em: 09/08/2018 às 08:00:21


(Divulgação/Editora Nega Lilu)
(Divulgação/Editora Nega Lilu)

Nesta quinta-feira (9), a jornalista Carla Lacerda lança a segunda edição do livro Sobreviventes do Césio 137, em parceria com o também jornalista Yago Sales que contribuiu para a nova edição. Originalmente lançado em 2007, no aniversário de 20 anos do acidente radiológico de 1987, Lacerda disse que a motivação para a reedição veio do aniversário de 30 anos do caso no ano passado.

“Alguns colegas jornalistas e outras pessoas me procuraram querendo o livro até pra poder subsidiar seus trabalhos, e eu não tenho mais nenhuma cópia, na verdade só tenho o meu. Toda a primeira edição foi esgotada”, conta. Ela então foi procurada pelo seu colaborador,  Yago Sales, que sempre se interessou muito pelo assunto e encontrou o livro em uma biblioteca. “Ele tinha o desejo de continuar contando essa história sob a ótica das vítimas. A partir da procura do Yago a gente chegou na Larissa Mundim que é a editora da Nega Lilu Editora e vimos que era importante relançar o livro porque estamos falando da História de Goiânia, pra gente contribuir para que essa História das vítimas não se perca”, relata Lacerda.

“A história do césio é muito enigmática”, conta Yago que, segundo ele, passou anos sendo um aficionado no assunto, sempre tentando saber e descobrir mais sobre os fatos ao redor do acidente. Ele conta que descobriu sobre o acidente do césio 137 pela internet quando ainda era um jovem adolescente e reclama que “na escola quase não se ouve disso”.

Ele então passou a guardar material sobre o césio e foi assim que encontrou o livro de Lacerda na biblioteca. “Fiquei apaixonado. Anotei tudo o que eu podia”, conta, relatando que logo foi atrás dela e compartilhou o seu interesse em retomar essa história.  “Por causa dos 30 anos fiz várias matérias como freelancer para muitos veículos”, disse Yago, portanto o material, a pesquisa e os personagens estavam frescos. Ele contou pra ela o seu interesse em aproveitar isso de alguma forma, talvez através de um site, mas a ideia logo amadureceu para a segunda edição.

A editora então sugeriu que fosse feita uma campanha de financiamento coletivo. Ela foi realizada entre setembro e novembro do ano passado e atingiu a sua meta para reeditar e imprimir 300 novos exemplares.

Mas não se trata simplesmente de um relançamento: “essa segunda edição é revista e ampliada. O Yago me ajudou atualizando alguns dados, ele fez novas entrevistas com a mãe da Leide, a dona Lourdes, conseguimos um depoimento do Odesson Ferreira, tio da Leide, e um novo do Geraldo Guilherme que foi quem levou a bomba do césio na Vigilância Sanitária, ele era funcionário do ferro velho do Devair”, conta Lacerda que não conseguiu contato em 2007.

Yago minimiza o seu papel e elogia Lacerda. “Ela tem um olhar jornalístico muito apurado”, disse ele, “só tenho a agradecer por ela dar crédito ao meu trabalho, me colocou na capa, acho que só um agradecimento já seria o suficiente”.

Esta edição também passou por um novo projeto gráfica. “Toda a linguagem verbal e não verbal do livro é um manifesto contra o apagamento da história porque a gente sabe que com o passar do tempo se não for o nosso trabalho de jornalista para lembrar essa história, a tendência é de cair no esquecimento”, conta Lacerda. Uma dessas mudanças foi a escolha pelo livro ser todo escrito com tinta azul, que remete à cor do césio. “Goiânia não tem nenhum memorial. Nenhum museu do acidente. Tem lá em Abadia de Goiás, mas acho que é importante ter aqui na cidade como tem em Chernobyl, como tem em Hiroshima, porque estamos falando da nossa História”, disse a jornalista, “a gente quer passar essa mensagem contra o apagamento do acidente e também entendendo que quanto mais informação e conhecimento a gente passa sobre o assunto, mais a gente contribui para diminuir a discriminação que as vítimas ainda sofrem, mesmo 30 anos depois”.

Outra peculiaridade é que durante a pesquisa para atualizar os dados da nova edição, Lacerda se deparou com uma discrepância entre os números de vítimas reportados. “Quando eu estava checando o conteúdo para a edição do livro, eu fui atrás dos documentos que eu tinha em 2007 e encontrei um relatório que foi distribuído na época pela antiga Suleide (Superintendência Leide das Neves) em que constava que existiam 12 mortes por câncer entre as vítimas dos grupos 1, 2 e 3 do acidente”, relembra. Agora, conferindo os dados relatados pelo  Centro Estadual de Assistência ao Radioacidentados (C.A.RA) no ano passado ela encontrou outro número: seis mortes.

Não era possível. “Fui atrás de outros documentos e encontrei uma revista da Secretaria Estadual de Saúde (SES) por ocasião dos 25 anos do acidente, em 2012, que relatava 15 mortes. Então se você faz uma linha do tempo, o governo havia divulgado, em 2007, 12 mortes por câncer entre as vítimas, em 2012, 15 mortes, e no ano passado disseram seis mortos”, relata Lacerda.

Diante da inconsistência desses números, ela visitou a diretoria do CARA em janeiro. “Eles me mostraram uma outra planilha confirmando que na verdade eram 15 mortes de 1987 até janeiro de 2018 e me disseram que estavam fazendo um novo estudo junto com o Hospital Araújo Jorge que deve ser finalizado em dezembro desse ano”, conta a jornalista, que disse ter recebido um dado atualizado da entidade, “o número preliminar que eles me passaram já subiu pra 19, que é o número mais atual que eu tenho”.

Porém, segundo Carla, o governo não reconhece essas mortes como sendo causadas pelo acidente. “As únicas mortes que eles consideram causadas pelo acidente com o césio são as quatro mortes de 1987: da Maria Gabriela, da Leide, do Israel e do Admilson. Eles catalogam as mortes mas não fazem essa associação”. Mesmo assim, ela acha que o mais importante é que estes dados corretos sejam de conhecimento público: “independente de se reconhecem a relação causal, acho importante eles estarem abertos para a sociedade, com transparência, como deve ser”.

“Esse livro vem pra resgatar e fazer jus a essa história”, disse Yago, “é pra cumprir o papel do jornalista de manter a memória acesa. É um livro doloroso, essa história trouxe e ainda traz muita dor. É um livro que serve de arcabouço de conhecimento e informação para quem gosta de literatura mas também para jornalistas, sociólogos, antropólogos. É um livro completo que abarca todo o acidente, é para todas as áreas do conhecimento”, finaliza.

SERVIÇO
Lançamento do livro: Sobreviventes do Césio 137, de Carla Lacerda, com colaboração de Yago Sales
9 de agosto (quinta), às 19 horas, no Coruja Café (Rua T-37, esquina com Rua T-12, Connect Park Business, Setor Bueno)
Preço de capa: R$ 40