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Bolsonaro admite que cloroquina pode não ter eficácia: “Tudo bem, paciência”

Mesmo admitindo, o presidente continua comprando e incentivo o uso do medicamento

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Bolsonaro mostra caixa de cloroquina para apoiadores em Bagé (Foto: Reprodução Patrick Correa / RBS TV)

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ainda incentiva o uso da cloroquina como forma de combater a pandemia de covid-19. Mas, nesta quinta-feira (4), ele acrescentou uma novidade ao discurso: admitiu que o remédio pode ser apenas um placebo, um medicamento sem efeito contra o coronavírus. Ou seja, ele assumiu que o governo federal gastou milhões de reais em um remédio que pode não ser eficaz na pandemia.

“Pode ser que lá na frente falem: a chance é zero, era um placebo. Tudo bem, paciência. Me desculpa. Tchau. Pelo menos não matei ninguém”, afirmou Bolsonaro nesta quinta-feira (4).

A declaração foi feita em uma transmissão ao vivo feita ao lado do diretor da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antonio Barra Torres. Vale lembrar que a própria Anvisa, ao aprovar o uso emergencial de vacinas contra covid-19, afirmou que não há um tratamento com efeito comprovado contra a doença.

De fato não há estudos que comprovem a eficácia da cloroquina. Mas Bolsonaro tem insistido em recomendá-la. Fez isso ontem inclusive. “Vi alguns estudos dizendo que tem 70% de eficácia. Então 140 mil mortes poderiam ter sido salvas”, divulgou o presidente, sem especificar quais estudos seriam esses.

Não foi a primeira vez que ele citou dados não comprovados para incentivar o uso de cloroquina. “Vou chutar aqui. Por volta de 30% das mortes poderiam ser evitadas com hidroxicloroquina usando na fase inicial”, disse ele no ano passado. Na mesma oportunidade, ainda divulgou uma outra mentira sobre o combate ao coronavírus: “uma maneira de você conseguir vitamina D é pelo sol. E a vitamina D ajuda aí a combater o vírus”.

Em outra transmissão ao vivo do ano passado, Bolsonaro já fez brincadeira para incentivar o uso de cloroquina, o que aumentou a politização do assunto. “Quem é de direita toma cloroquina, quem é de esquerda toma Tubaína”.

Em 2021, o Ministério da Saúde chegou a lançar um aplicativo para recomendar tratamentos contra covid-19 no Amazonas. O programa foi criticado, por indicar remédios sem efeito comprovado. O governo federal chegou a divulgar o aplicativo nas redes sociais, mas depois retirou o o programa das lojas virtuais e disse que ele só foi ao ar por causa de ações de hackers.

Efeito colateral

Bolsonaro também erra ao insistir que a cloroquina não tem efeitos colaterais. “Se não faz mal, o médico falou que não está previsto esse mal que você tem na bula do remédio, não provoca arritmia, por que não tomar? Eu tomei”.

Diarreia, náusea, dor abdominal, falta de apetite, constipação, vômito, tontura, sonolência, vertigem, tremor, febre, coceira, lesões de pele e urticária estão entre os possíveis efeitos colaterais da cloroquina.

A bula recomenda cautela com pacientes com doenças hepáticas ou renais e com problemas cardíacos, gastrointestinais e neurológicos.

Além disso, o medicamento é contraindicado para crianças menores de 6 anos. O aplicativo do Ministério da Saúde, divulgado no Amazonas, não fazia diferenciação de idade e podia recomendar cloroquina para bebês.

Ivermectina sem efeito comprovado também

O governo federal também já defendeu o uso de ivermectina para combate contra covid-19. Mas a própria fabricante, Merck (representada no Brasil pela MSD), afirmou que ainda não há evidências de que o medicamento traga benefícios ou seja eficaz no tratamento da doença causada pelo coronavírus.

Em um comunicado publicado ontem, a empresa disse que não há base científica que indique efeitos terapêuticos contra a covid-19 nos estudo pré-clínicos já publicados.

Além disso, a farmacêutica afirmou que não foi encontrada evidência significativa de eficácia ou atividade clínica do medicamento em pacientes infectados pelo coronavírus.

Milhões investidos

Até agora, os gastos da União com cloroquina, hidroxicloroquina, tamiflu, ivermectina, azitromicina e nitazoxanida somam pelo menos R$ 89.597.985,50, segundo levantou a reportagem da BBC News Brasil por meio de fontes públicas. Nenhum desses medicamentos tem efeito comprovado contra covid-19. O Estadão já publicou, em dezembro do ano passado, que o governo federal investiu cerca de R$ 250 milhões só para distribuir a cloroquina pelo país.