Jorge Lima
Do Mais Goiás

Hoje em dia ser órfão é quase inevitável

A orfandade tem ameaçado nossos sorrisos e costurado a tristeza num horizonte sem fim de lágrimas e abandono.

Os ritos de passagem são importantes. Eles moldam e transformam os momentos importantes da vida de uma pessoa, comunidade ou nação, seja na alegria ou no sofrimento. No último ano um importante rito de passagem tem sido negado aos milhares que sepultam seus entes queridos, sem um momento adequado de despedida, tanto pelo risco de contaminação do vírus ou mesmo pela velocidade que ele tem levado pessoas da mesma família.

É um momento raro para a história de nosso país em todas as dimensões, porém a mais afetada continua, como em grandes catástrofes, sendo a vida. Sim, a vida tem sido tirada dos nossos amigos, familiares, de pessoas que nunca vimos, e claro, até de nós afinal não sabemos quem será o próximo e, por isso, o medo da morte nunca foi tão real como nesses dias cinzentos de dor e sofrimento do luto.

A morte causa sofrimento em muitas pessoas da mesma família, grupo social ou em toda uma nação. Esse sofrimento é mais latente quando presenciamos os pais sepultarem os filhos ou os filhos sepultarem os pais: grande sofrimento!

Essa doença tem deixado milhares de órfãos, somos uma nação de órfãos. A orfandade tem ameaçado nossos sorrisos e costurado a tristeza num horizonte sem fim de lágrimas e abandono.

Nunca choramos tanto. Nunca tivemos tão esvaziados de esperança em dias melhores. Bilhões de horas de solidão em cada luto, em cada adeus, fazendo de nós uma nação que todos os dias, há mais de um ano, chora a dor do luto.

Ontem foram mais de 4 mil pessoas que perderam a vida, que foram embora sem se despedir e afundaram num mar de lágrimas outros milhares que, com sentimento de incapacidade frente à doença, ficaram com os corações em pedaços.

Entre essas pessoas estavam muitos pais e mães fazendo de nossa época uma das mais difíceis, na qual ser órfão é quase inevitável.