Comportamento

Moço, você não é obrigado

Ontem foi a garota do Rio, amanhã pode ser sua mãe, sua irmã, sua filha.


Altemar Santos
Do Mais Goiás | Em: 27/05/2016 às 14:39:12


Moço, você não é obrigado a nos amar, nem mesmo lutar por nossa causa, mas você é obrigado a nos respeitar e parar para nos ouvir.

A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil. Nosso país é o 7º país que mais mata mulheres no mundo e a cada 10 assassinatos, sete são praticados por seus maridos.

Então, moço, não jogue a culpa no tamanho de nossa roupa, nem nos lugares que frequentamos, porque os culpados são vocês, homens.

E você pode até estar pagando de bonzinho agora nas redes sociais, se indignando com os 30 monstros que amassaram os sonhos e o corpo da garota carioca. Você pode até ficar ofendido quando colocamos todos vocês na mesma vala do machismo, mas, moço, é exatamente isso que você se torna quando após ler um texto como esse, escreve “feminazi” embaixo.  Machismo é o que você pratica quando diz que a mulher está precisando de “rola” quando a vê reclamando por direitos. É isso que você pratica quando ri da piadinha infame que nos diminui como mulheres. É isso que você pratica quando responde que é só “humor”, quando lhe questionamos.  É isso que você pratica quando mexe com uma garota na rua e ainda devolve com uma ofensa ainda pior quando ela lhe responde da maneira merecida.

Machismo é o que você reproduz nos seus grupos de amigos no WhatsApp, ao repassar fotos e vídeos de garotas nuas e em situações degradantes, é o que você pratica ao comemorar a primeira transa do seu filho e espancar sua filha quando a descobre com o namoradinho. É o que você pratica ao transar com sua amiga bêbada, que mal consegue parar em pé, e depois, se justificar jogando a culpa no comportamento da garota que inventou de beber demais na sua presença – alguém, que provavelmente, ela confiava.

Você não é obrigado, moço, a receber tapa de mulher alguma, mas está em suas mãos a escolha de abandonar o lugar e o relacionamento e não passar de vítima para algoz. Está em suas mãos a escolha de não transformar sua esposa/namorada em refém do seu ciúme e possessão. Está em suas mãos a escolha de não ser o protagonista de um relacionamento abusivo.

Não adianta fazer textão nas redes sociais diante de grandes fatos, quando no dia a dia, você contribui para que mais 30 homens estuprem outras garotas cariocas, ao reproduzir, costumeiramente, tantas atitudes contraditórias.

Sim, moço, a culpa dessa atrocidade é sua também, que repassa, que não finaliza o ciclo do patriarcado que nos emudece e tenta nos colocar sempre um passo atrás do másculo. É sua a responsabilidade por um mercado que paga menos a mulheres pelos mesmos cargos ocupados por vocês. Também é sua a imposição que delimita que horas e em que tipo de locais podemos passar com segurança.

Puxar braço de garota em balada, insistir no sim quando já recebeu um não, falar “mas também, ela provocou” diante de situações onde mulheres são violentadas fisicamente e psicologicamente, gritar “só podia ser mulher” ao ver uma situação no trânsito, são só algumas das rotinas onde você repassa o machismo e reforça a necessidade do domínio masculino sobre a mulher.

Você não é obrigado a nos achar legais, muito menos nos amar, mas é obrigado sim, a refletir que no corpo da carioca e de tantas outras mortas todos os dias por justificativas ditas “passionais”, no corpo de todas elas tem as suas mãos também.

Você não é obrigado a defender o feminismo, moço, assim como nós, também, não somos obrigadas a nos calar diante da hipocrisia que você prega muitas vezes sem perceber.

Ontem foi a garota do Rio, amanhã pode ser sua mãe, sua irmã, sua filha. O poder de estancar esse ciclo vicioso está em suas mãos. Por favor, comece. Ajude-nos, precisamos de você.

 


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