Nos últimos dias, não surpreendentemente, Sérgio Moro decidiu não incluir o ex-capitão da polícia militar Adriano Magalhães da Nóbrega na lista dos homens mais procurados no Brasil

O miliciano, o presidente e um Brasil cada vez mais semelhante à Colômbia

No contexto desse assunto deveras complicado relacionado às milícias, existe o que poderia ser chamado de “colombização” da ordem pública no Brasil


Francesco Guerra
Do Mais Goiás | Em: 05/02/2020 às 08:13:09

Foto: José Cruz/Agência Brasil
Foto: José Cruz/Agência Brasil

Nos últimos dias, Sérgio Moro, de forma pouco surpreendente, para dizer a verdade, decidiu não incluir o ex-capitão da polícia militar Adriano Magalhães da Nóbrega — acusado de comandar a milícia mais antiga do Rio de Janeiro e suspeito de fazer parte de um grupo de assassinos profissionais — na lista dos homens mais procurados no Brasil.
A notícia, como já dito, não é muito surpreendente, haja vista que o nome de Nóbrega está intimamente ligado ao da família Bolsonaro e, mais particularmente, ao de um dos filhos do presidente, Flávio Bolsonaro, como destacado em vários artigos da Folha de São Paulo, nos quais é lembrado que dois parentes próximos de Nóbrega foram nomeados para trabalhar no gabinete político do filho do presidente, como também que o próprio presidente defendeu, em 2005, num discurso na Câmara dos Deputados, o miliciano, então condenado por assassinato, mas depois (olha lá a casualidade!) absolvido e, finalmente, que Adriano da Nóbrega, enquanto estava na prisão por assassinato, foi homenageado com a medalha Tiradentes por Flávio Bolsonaro.
Em outras palavras, Moro — cuja nomeação para ministro do Supremo Tribunal Federal, deve-se lembrar, ainda está em jogo — prefere mais uma vez defender a estabilidade, ao persistir na frágil desculpa segundo a qual as acusações contra Adriano da Nóbrega não teriam caráter interestadual — motivo para inseri-lo na lista dos mais procurados no Brasil. Razão bastante inconsistente, pois nessa mesma lista aparecem outros dois milicianos do Rio de Janeiro que, com todas as evidências, não responderiam a acusações de natureza interestadual, exatamente como o miliciano acima mencionado.
Na quinta-feira, 30 de janeiro, foram emitidos 45 mandados de prisão através da Operação Intocáveis II, a pedido do GAECO (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado). A maioria dos acusados atuava na área de Rio das Pedras, entre eles um número considerável de membros do corpo de policiais civis e militares, que há bastante tempo passaram a fazer parte das milícias paramilitares. Um cenário muito preocupante, qualificado pelas palavras de Claudio de Mello Tavares, magistrado carioca e presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, que sublinhou como todo o estado do Rio de Janeiro está nas mãos dos milicianos e como, à luz desse fato, o poder judiciário é convocado a reagir com firmeza e rigor.
Finalmente, na sexta-feira, 31 de janeiro, a Polícia Civil do Estado da Bahia, juntamente com as forças policiais do Rio de Janeiro, realizaram uma operação conjunta para capturar Adriano da Nóbrega, no entanto, sem sucesso. Operação, a seu turno, denunciada pela esposa de Nóbrega, a qual declarou que seu marido é vítima de uma conspiração armada pelo atual governador do Rio de Janeiro, Witzel, interessado na morte de Nóbrega, porque estaria preocupado com as possíveis revelações que ele poderia fazer. De onde exatamente essas palavras da esposa de Nóbrega derivam, não se sabe, mas mais do que tudo, não se sabe o quão verdadeiras elas podem ser. A única coisa que podemos esperar, pelo bem deste país atormentado, é que os órgãos de investigação do Rio de Janeiro convoquem a esposa de Adriano da Nóbrega o mais rápido possível e verifiquem a autenticidade do que ela afirma com referência a Witzel, talvez aprofundando também os outros laços mantidos pelo casal de Nóbrega com a família Bolsonaro.
No contexto desse assunto deveras complicado relacionado às milícias, existe o que poderia ser chamado de “colombização” da ordem pública no Brasil, na medida em que, como outrora aconteceu na Colômbia, o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho fossem substituídos, de maneira estável, por milícias paramilitares, o que seria ainda mais difícil de erradicar, pois tais milícias estão intimamente ligadas a elementos pertencentes às mesmas forças policiais, que, a princípio, deveriam persegui-las, assim como aos níveis mais altos da política deste país. Um cenário que já é realidade em várias cidades brasileiras, mas que, caso fosse ulteriormente tolerado, se estruturaria como um poder consolidado, de fato, alternativo e concorrente ao Estado, entendido, no sentido do sociólogo alemão Max Weber, como monopólio da força.
A ocorrência de um escândalo semelhante ao que ocorreu na Colômbia em 2006, o chamado “Parapolítica”, certamente não seria algo surpreendente em um país como o Brasil, onde uma parte da política, assim como do eleitorado, vê com evidente aquiescência a presença de milícias paramilitares no território nacional e onde o Narcoestado, articulado concretamente pelas milícias acima mencionadas e endossado pela mesma política, é algo que já está tomando forma, não sem a contribuição de uma luta de décadas contra o narcotráfico tão ineficaz que levanta a dúvida se não é nada mais que uma luta de fachada.


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