Francisco Costa
Do Mais Goiás

Autismo não é doença e é possível, sim, viver bem com o espectro

No Dia Mundial de Conscientização do Autismo, conheça a trajetória de dois jovens que convivem com o transtorno

“Meu cotidiano pode parecer solitário, triste, estagnado e sem graça, mas é justamente o contrário
“Meu cotidiano pode parecer solitário, triste, estagnado e sem graça, mas é justamente o contrário", diz Thiago (Foto: Arquivo Pessoal)

A sexta-feira, 2 de abril, celebra o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, data criada pela Organização das Nações Unidas em 18 de dezembro de 2007. Apesar das informações serem cada vez mais claras, o transtorno do espectro autista (TEA) ainda gera dúvidas. Há uma escala de intensidade para orientar quanto a vida de uma pessoa é afetada por um conjunto específico de comportamentos. Porém, em boa parte dos casos, vive-se normalmente, como demonstram Álvaro Oiano Vizotto e Thiago Nunes Matos, moradores de Goiânia.

Thiago, de 25 anos, é estudante. Ele descobriu que tem síndrome de Asperger – um estado do espectro, comumente com maior adaptação funcional – em 2015. “Já procurei atendimento na rede publica de saúde, mas só tive a oportunidade de ter o apoio de bons profissionais na rede privada de saúde mental, em 2018, ano que recebi (oficialmente) o laudo de Asperger.”

Ele, que faz psicoterapia com uma psicóloga e acompanhamento médico com psiquiatra, revela que o dia a dia possivelmente é mais difícil do que para quem não o transtorno, mas afirma que, “à medida que crescemos aprendemos a nos camuflar para nos readaptar ao meio social”.

Ele continua. “Mas meu dia é mais pacato, não sou de sair muito. Geralmente vou à igreja, supermercado, fazer exercícios. Não sou de ir em festas quando não conheço ninguém e nem em viagens longe da minha casa”, admite.

Ele revela, ainda, que não acompanha notícias sobre famosos ou políticas e procura fazer cursos por horas e horas. “Isso é o que chamamos no nosso meio de hiperfoco. Crio teorias sobre os mais diversos assuntos, mesmo que seja difícil colocar em prática.”

Dificuldades

De acordo com Thiago, quem está no espectro enfrenta muitas dificuldades, principalmente por falta de apoio do poder público – “vivemos em um País com muitos problemas”. Segundo ele, muitos profissionais de saúde mental se aproveitam de pacientes e familiares desesperados, inclusive.

“E na maior parte do tempo, quando encontro outras pessoas, tento me aproximar delas, mas por causa da minha falta de percepção aos detalhes (também tenho TDAh/Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade) e por causa do hiperfoco, acabo afastando as pessoas. E o pior: logo sou taxado de egocêntrico, arrogante e metido”, lamenta.

Até por causa do TDAh, Thiago relata dificuldades para trabalhar e estudar, mas afirma que tem lido sobre o assunto. “Por isso utilizo técnicas de produtividade e organização. Eu planejo o que vou fazer um dia antes, geralmente à noite, e, quando acordo, olho a minha planilha de atividades. Agora acho que vai ficar mais fácil, pois comprei um aparelho que vai me ajudar na concentração”, diz satisfeito.

Ele revela, que apesar de focar nos estudos, nesse momento, tem feito alguns trabalhos, como ajudante de porteiro no prédio onde a mãe trabalha e também na parte de limpeza. Segundo ele, já distribuiu alguns currículos e espera ser chamado em breve. “Meu cotidiano pode parecer solitário, triste, estagnado e sem graça, mas é justamente o contrário. E muita coisa faz sentido quando você tem empatia por mim”, declara.

Álvaro

Álvaro, que também é Asperger, completa 23 anos no próximo dia 24. Ele trabalha como auxiliar administrativo desde setembro de 2018, no polo empresarial de uma rede de drogarias, mas também dá palestras sobre autismo. “Eu ia começar a fazer faculdade de Eventos e Cerimonial, mas infelizmente não formou turma e, por isso, fico fazendo cursos técnicos nessa área.”

Sobre seu diagnóstico, ele revela que quando tinha seis meses, a mãe o achou muito esperto e sentia que ele já queria falar. “Mas eu não conseguia, porque era muito pequeno e era ‘super chorão’. Aí ela percebeu que isso era um comportamento diferente. Então, quando eu fiz 2 anos, ela me levou ao cinema pela primeira vez e, em vez de eu ter sentado virado para tela do cinema, eu ajoelhei na cadeira e fiquei olhando para o teto, para as paredes e para as pessoas. Ela achou isso diferente e me levou para as terapias”, revela um pouco de sua história.

“Ela me levava nas terapias para eu melhorar o meu comportamento, mas também para achar meu diagnóstico. No entanto, terapeutas não sabiam o que eu tinha”, lembra.

Segundo ele, nessa época a família vivia no interior de São Paulo. Foi quando fez nove anos, já em Goiânia (ele passou por Uberlândia antes), que conseguiu o diagnóstico correto. “Goiás, eu percebo que é o estado brasileiro que mais abraça as causas de qualquer necessidade especial”, elogia.

“Não é bom ficar colocando pressão em cima de um aluno autista, porque nós costumamos ser ansiosos. E quem está no espectro tem muita dificuldade em sair da rotina”, diz Álvaro (Foto: Arquivo Pessoal)

Na escola

Álvaro também falou sobre a vida na escola. Segundo ele, para um aluno especial conseguir se desenvolver, professores precisam entender qual é a o problema daquele aluno, pois assim verão o jeito correto de ajudá-lo. “Eu, como sou Asperger, consigo melhor sobre como fazer para o professor atender o aluno autista. Para explicar algo para o aluno autista tem que usar as linguagens denotativas, evitando as linguagens conotativas e as metáforas.”

“Não é bom ficar colocando pressão em cima de um aluno autista porque nós costumamos ser ansiosos. E quem está no espectro tem muita dificuldade em sair da rotina”, continua. “Para a população ajudar, é necessário entender que o autismo é uma condição não visível, é necessário compreensão sem julgamentos, procurar esclarecimentos, colocar-se nos nossos lugares e jamais ter capacitismo.”

Hoje, Álvaro – que já fez terapias com psicólogos, psicopedagoga e neuropsicóloga – leva uma vida normal. “Sigo com meu serviço, mas me afastei por causa da pandemia. Fico bem recluso e com medo dessa terrível Covid”, diz. Questionado sobre o que aconselha para que quem está no espectro, ele diz: “Aconselho a não esconder que está, aceitar a condição, seguir em frente e entender que não é bicho de sete cabeças.”

Autismo

O estudo “Autismo no Brasil: Desafios, Mitos e Verdades”, conduzido pelo médico Carlos Gadia, da University of Miami Miller School of Medicine, revela que um em 59 crianças estão no transtorno do espectro autista (TEA). Dados do CDC (Center of Deseases Control and Prevention), órgão ligado ao governo dos Estados Unidos, apontam que lá existem um caso a cada 110 pessoas e que, conforme texto da USP, seriam cerca de 2 milhões no Brasil.

A psicóloga Fernanda Calci, formada em análise comportamental clínica, explica que o autismo não se categoriza como doença. Segundo ela, “ele faz parte de um espectro, pois tem vários tipos e níveis e cada pessoa é do seu jeito. É difícil dizer o que é exatamente, porque não tem causa: se é genética ou ambiental”.

Fernanda afirma, ainda, que se trata somente de um nome para um conjunto de comportamentos. “Não trabalhamos com o autismo. A gente, da análise do comportamento, vai trabalhar com os excessos e os déficits”, explica ao dizer que não existe receita pronta. “É preciso avaliar e a partir disso ver os déficit e excessos.”

Ela destaca que, quanto mais cedo o diagnóstico for feito, melhor. “Mas não basta diagnosticar, tem que ir para a intervenção com fundamentação científica.” O resultado dessa intervenção precoce pode ser atingir marcos de crianças típicas, adequados para a idade dela, disse a psicóloga. “A criança é uma esponjinha. Se estimulada desde cedo, é possível minimizar comportamentos inadequados e ampliar os repertórios.”

Acerca das características mais comuns ela pontua: olhar que não foca no outro, estereotipias, ecolalia (repetições vocais) e linguagem (geralmente desenvolvem linguagem mais tarde). “E sem a linguagem, podem surgir muitos comportamentos problemáticos. Por isso é importante trabalhar.”

“A criança é uma esponjinha. Se estimulada desde cedo, é possível minimizar comportamentos inadequados e ampliar os repertórios”, diz a psicóloga Fernanda Calci (Foto: Arquivo Pessoal)

Questionada sobre a possibilidade de vida normal, ela afirma que não é possível precisar/quantificar quais daqueles diagnosticados no TEA poderiam alcançar isto. Porém, a psicóloga afirma que, quanto o antes o diagnóstico e a intervenção, maior é o número daquelas que podem, sim, viver normalmente.