Do Mais Goiás

Alto da Boa Vista: ocupação que é comunidade

Local, que possui água, luz, coleta seletiva e mais, foi dividido por blocos, com ruas, lotes e quadros pelos próprios moradores

Ocupação que é comunidade
Ocupação que é comunidade

A Ocupação do Alto da Boa Vista fica dentro da Vila Delfiore, em Aparecida de Goiânia. Ela fica no final da Avenida Cristus, em frente a uma região de mata. Para chegar no local não é difícil: existem duas linhas de ônibus que passam a uma distância de cerca de 7 quadras.

No mesmo bairro, a aproximadamente 350 metros existe um Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) e a 150 metros uma Unidade Básica de Saúde (UBS).

Hoje, a ocupação, que congrega mais de 300 famílias, parece um pequeno condomínio: dividido por blocos, com ruas, lotes e quadras, separados pelos próprios moradores.

O Bar do Índio é um ponto de encontro para quem quer jogar uma sinuca e conversar com os vizinhos. O comércio funciona como uma espécie de bar-mercearia, que vende comidas e insumos para as famílias.

A realidade de hoje é bem diferente do que era há quase dois anos. Um dos moradores do Colina Azul que conhece bem a região, Seu José Hipólito de Souza, relembra o estado de abandono e perigo para quem passava ali pela noite.

“Só tinha um matão”. Aos 68 anos, hoje ele é aposentado da Secretaria Municipal de Meio Ambiente. E conta que sempre passava pelo local mas que nunca viu nenhum tipo de utilidade. “Trabalhei por 18 anos nesse setor e nunca vi função social. Aqui ficou maravilhoso, quando o pessoal [da ocupação] veio.”

A coleta seletiva do lixo produzido pela comunidade é feita pelos próprios moradores. “Aqueles que não trabalham, cuidam das crianças e a gente também junta o lixo para reciclagem. Fazemos a coleta seletiva”, afirma Yanne Araújo da Silva, que é membro da associação da Ocupação.

Ainda assim, não é incomum ver um amontoado de lixo na divisa da Cristus com o assentamento. Mas eles alegam que outras pessoas, que não moram na ocupação, deixam os resíduos no local. “Os lixos que vocês viram na porta não somos nós. São moradores [do setor] querendo prejudicar”, garante ela.

Yanne também destaca que, no local, as mulheres fazem mutirões pela limpeza, enquanto os homens trabalham no reparo da energia. O material reciclado, graças a já citada coleta seletiva, é vendido e vai para as necessidades da comunidade, seja alugar um ônibus para ir à justiça, ou mesmo para comprar remédio.

As casas da ocupação são as mais variadas (Foto: Bárbara Zaiden)

Pela comunidade

As casas, que foram apresentadas por outra líder do movimento, Jackeline Pires da Silva, são as mais variadas. No local, as residências, originalmente, deveriam ocupar espaços de 9 x 30 metros.

Mas na prática, essa divisão pode variar – herança dos primórdios da ocupação, quando o líder da associação (que hoje não mais faz parte da comunidade) distribuía os espaços de forma heterogênea.

Entre as visitadas, tinham aquelas com quarto, sala, cozinha e banheiro, mas também algumas com dois quartos, com divisão pelo melhor aproveitamento. Algumas, até mesmo, com banheiro interno, mas chuveiro externo.

Quarto em uma das casas da ocupação (Foto: Bárbara Zaiden)

Em comum, boa parte delas com quintal para plantio, animais e até varandas. As construções variam bastante. Enquanto umas utilizam madeirite, são pintadas, outras são bem mais simples, com estruturas básicas e contornos de lona – inclusive de propagandas antigas. Em comum, uma garantia de todos: “Dignidade e um teto que protege da chuva e outras intempéries.”

As ruas, de terras, tem estrutura razoável pelo estilo. Conservadas pelos próprios moradores. Energia elétrica, gato; água, poços artesianos. Assim, não falta nada para ninguém. Até internet tem.

Tem casas de todos os tipos na ocupação (Foto: Bárbara Zaiden)

Serra das Areias

A Ocupação Alto da Boa Vista é um grupo heterogêneo. Em comum, o desejo por moradia e uma vida digna. Alguns, experimentam pela primeira vez viver em uma ocupação, enquanto outros já tiveram essa experiência no passado, conforme informou a associação de moradores.

Em menor quantidade, há pessoas que passaram, até mesmo, pelo Parque Oeste Industrial, há mais de 15 anos. Outros, mais comuns, passaram pela invasão da Serra das Areias, região Sul de Aparecida, e principal área de preservação ambiental da cidade. Inclusive, estes teriam sido os pioneiros na Ocupação Alto da Boa Vista.

Vale lembrar: em 29 de setembro de 2018, um número não específico de famílias adentrou a área de preservação do município que, na verdade, é sua principal reserva ambiental.

À época, foi informado por leitores do Mais Goiás que os ocupantes realizaram um desmatamento ilegal para colocar suas barracas e se instalarem – não foi a primeira vez: em 2012, cerca de 250 famílias realizaram o mesmo movimento (eles ficaram nove dias e foram removidos pela Polícia Militar).

De volta a 2018, as famílias, que não tiveram número exato revelado, ficaram por 18 dias no local. Segundo informado, oficialmente, a prefeitura de Aparecida desarmou as moradias improvisadas “de forma pacífica e tranquila” e “não havia pessoas na ocupação no momento, o que comprova a conduta de mera especulação do local, que é uma Área de Preservação Ambiental, protegida por Lei e não é indicada para moradia”.

De lá, muitos migraram para o que é, hoje, a Ocupação Alto da Boa Vista. Atualmente, a vida dos moradores da ocupação também está em risco.

No último dia 29/1, a juíza Vanessa Estrela confirmou a decisão de despejo, tomada originalmente em meado do ano passado. Apesar disso, naquele mesmo dia, os moradores decidiram, em assembleia que permaneceriam no assentamento.

Alguns moradores aproveitam a terra para o plantio (Foto: Bárbara Zaiden)

 

LEIA MAIS
Série Especial | Na mira do despejo
TEXTO 1: Ocupantes do Alto da Boa Vista garantem: “Vivemos com dignidade”
TEXTO 2: Alto da Boa Vista: hospitalidade, alegria e desejo de continuar sob um teto
TEXTO 3: Alto da Boa Vista em análise: a Justiça decidiu pela desocupação
TEXTO 4: Alto da Boa Vista: como no Parque Oeste Industrial