Requalificação

A Praça Cívica como centro cultural e ferramenta de resgate histórico

Projeto do governo estadual promete restaurar e musealizar os sete edifícios históricos da região. Urbanista critica falta de atenção ao seu planejamento original


Thiago Burigato
Do Mais Goiás | Em: 09/04/2017 às 09:24:08

Projeto depende apenas da aprovação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para que comece a ser executado, o que deve acontecer até maio (Imagem: Reprodução)
Projeto depende apenas da aprovação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para que comece a ser executado, o que deve acontecer até maio (Imagem: Reprodução)

Apenas dois anos depois de passar por uma grande reforma, a Praça Cívica de Goiânia está em vias de ser transformada novamente. A proposta é fazer o que o último projeto não conseguiu: atrair a população para que ocupe o espaço público, ao mesmo tempo em que promove a cultura e o resgate histórico da capital.

O novo projeto da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte (Seduce) tem o nome de “Circuito Cultural” não sem motivo. A intenção é revitalizar os sete antigos prédios administrativos da região, construídos em art decó, e transformá-los em equipamentos culturais, como museus, bibliotecas e casas de espetáculo. Restaurantes e cafés também estão no planejamento.

A superintendente de Patrimônio Histórico e Artístico da Seduce, Tânia Mendonça, explica que pontos culturais que já existem por ali não só vão permanecer como receber um incremento. É o caso, por exemplo, do Cine Cultura, que será ampliado e contará com uma segunda sala. “O Cine Cultura integrará o Centro Audiovisual Maria Telles Machado, onde vão ser abrigadas todas as unidades que lidam com o audiovisual, como o Museu da Imagem e do Som, e que será sede do Fica [Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental]”, destaca.

Pela proposta apresentada, o 1º Bloco do Tribunal de Contas do Estado (TCE) vai sediar o Arquivo Histórico Estadual. Já o prédio onde funcionava a Procuradoria-Geral do Estado (PGE) vai abrigar o Museu Casa Goyaz, contando com a Biblioteca do Estado e a Biblioteca Braille.

O Palácio das Esmeraldas continuará como a residência oficial do governador, mas também vai acumular, em seu piso térreo, a função de museu. A Antiga Chefatura de Polícia, por sua vez, será conhecida como o Museu do Alimento, compartilhando seu espaço com uma central de atendimento aos visitantes.

A promessa é que os museus sejam instalados com equipamentos tecnológicos visando à priorização da interatividade, seguindo modelos como o Museu da Língua Portuguesa e o Museu do Futebol, ambos em São Paulo. (Confira mais detalhes ao final da matéria).

De acordo com Tânia, o projeto está sendo pensado desde 2015, mesma época da entrega da última reforma. Agora que está concluído, depende apenas da aprovação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para que comece a ser executado, o que deve acontecer até maio. “O Iphan liberando, nós já daremos início ao processo de qualificação”, afirma. Para ela, a criação do Centro Cultural vai gerar um sentimento de pertencimento e de autoestima ao povo goiano.

O chefe do Núncleo de Obras e Recuperação do Patrimônio da Seduce, Marcílio Lemos, conta que todo o procedimento vai custar por volta de R$ 100 milhões, incluindo a criação dos museus, compra de imobiliário e de equipamentos, e a restauração e requalificação dos edifícios. O custo será bancado pelo governo federal, por meio do PAC Cidades Históricas, e pelo próprio governo estadual, com incentivos da Lei Rouanet.

Marcílio aponta que o projeto foi pensado, sobretudo, para promover a ocupação de um espaço histórico e central da cidade, que continua sem a atenção devida da população. “Houve um projeto recente nesse sentido, mas a praça continua sem uso, as pessoas continuam não frequentando. Então a determinação do governador foi que todos os edifícios da praça tenham fins culturais”, relata. A expectativa é que a instalação de restaurantes, cinemas e museus garanta, ainda, a atração do turismo para a cidade, além de resgatar sua história para os próprios habitantes.

Projetos de requalificação de prédios históricos para a cultura já existem no Brasil. A Praça da Liberdade, em Belo Horizonte (MG) é a principal inspiração para o conceito do Circuito Cultural na Praça Cívica, que se baseia também em iniciativas recentes ocorridas no Rio de Janeiros (RJ) e em Curitiba (PR). “Essa é uma tendência no mundo inteiro”, pontua Marcílio.

Espera-se que todo o projeto da Praça Cívica esteja concluído dois anos após o início das obras.

Sem identidade

Mesmo com as boas intenções, a proposta do Circuito Cultural não agrada a todos. É o caso da doutora em arquitetura e urbanismo Ana Maria Diniz, que demonstra insatisfação com alguns pontos, como a não concordância com o projeto inicial da Praça Cívica – desenhada por Atílio Corrêa Lima em 1933 como um centro administrativo – e a ausência de estacionamento para os que se interessarem em frequentar o espaço.

“Tenho várias reservas sobre tudo o que tem sido feito na Praça Cívica desde o início”, declara Ana Maria, citando as obras realizadas em 2015. “Naquele projeto falavam que iam revitalizar, mas tiraram as pessoas. Mesmo que estivesse sendo usada como estacionamento, bem ou mal as pessoas estavam utilizando a praça”, critica.

Para ela, as intervenções ocorridas ali ao longo dos anos estão colaborando para “destruir” a identidade da capital de Goiás. “O passado de Goiânia se baseia na questão da centralidade administrativa. O projeto que eles estão dando andamento, de transformar os prédios da praça em museus e centro cultural, vejo como outro equívoco”, acentua.

A Praça Cívica foi pensada na década de 1930 como centro administrativo do Estado (Foto: Reprodução)

A professora defende que os envolvidos nos projetos de renovação da praça se atentem às ideias iniciais de sua criação. “A praça é administrativa. Vamos perder completamente esse marco. As instituições, departamentos e repartições públicas estão sendo pulverizadas”, diz a urbanista, asseverando que o projeto atual do governo é “político, não técnico”. Em seu entendimento, a promoção de eventos no local seria muito mais efetiva para sua ocupação do que a proposta de reforma e alteração da função dos edifícios.

Outro ponto destacado por Ana Maria é a falta de estacionamento. “Em Goiânia nós temos a cultura de ir aos locais de carro. Eles fizeram o projeto e esqueceram do estacionamento”, diz.

Marcílio Lemos, no entanto, não vê fundamento nas críticas de Ana Maria, a começar pela questão do transporte. “A tendência hoje em todas as grandes cidades é o incentivo ao uso de aplicativos como a Uber, do transporte público, da bicicleta, para evitar o uso do carro”, destaca.

Ele também considera despropositada a ideia de voltar a Praça Cívica ao que ela foi projetada para ser. “Goiânia foi fundada para 50 mil habitantes, mas cresceu e os edifícios já não atendem mais à administração pública. A cidade não pode ficar congelada no tempo”, declara.

Confira as principais mudanças

Antiga Chefatura de Polícia –Será transformada no Museu do Alimento, utilizando recursos tecnológicos para falar sobre a importância do alimento na vida das pessoas. O prédio, que hoje se encontra desocupado, já está sendo restaurado com recursos do governo federal, detentor de sua posse. O projeto prevê a restauração e requalificação do espaço com a instalação de espaços para exposições de longa duração. Vai abrigar também uma central de atendimento ao visitante na Alameda Cultural, através de totens digitais, maquetes, cabines eletrônicas, material de divulgação e guias capacitados.

Procuradoria Geral do Estado – Cederá lugar ao Museu Casa Goyaz, que realizará exposições temporárias e de longa duração por meio de módulos interativos, projeções audiovisuais e outros elementos tecnológicos, que apresentarão os acervos históricos e artísticos da arquitetura de Goiás em formato digital. O edifício também ganhará uma sala para concertos de música e para outras manifestações artísticas.

Palácio das Esmeraldas – O prédio que hoje é a residência oficial do governador do Estado permanecerá com sua função original. No entanto, passará por algumas reformas. O piso térreo passará por musealização e será aberto à visitação. O mesmo acontecerá com os jardins internos. Uma exposição de longa duração resgatará toda a história dos ex-governadores e ex-primeiras damas que passaram pelo Palácio.

Centro Cultural Marieta Telles Machado – Será transformado em Centro Audiovisual, que inclui a construção de uma galeria coberta interligando museu, cinemas, café e casa de espetáculos. O prédio continuará sendo sede do Museu da Imagem e do Som (MIS), Cine Cultura (com duas salas), além de espaços destinados ao Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica). Ganhará ainda laboratórios e sala de exposições para mídias digitais, sala de concertos e de exposições, além de uma cafeteria.

Tribunal de Contas do Estado – Terá suas fachadas restauradas, voltando ao aspecto original, e terá requalificado os espaços internos. Abrigará o Arquivo Histórico Estadual, que será responsável pela guarda, gestão e preservação dos acervos documental da história de Goiânia e de Goiás.

Museu Zoroastro Artiaga – Terá seus detalhes arquitetônicos restaurados e os espaços internos revitalizados.

Antiga Delegacia Fiscal – O prédio terá resgatado seus aspectos originais. O edifício será a nova sede da Superintendência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Goiás (Iphan) e ganhará o nome de Casa do Patrimônio em Goiás.